algumas apresentações


O Museu das Delícias

Por Paulo Klein

"Não gosto muito de museus. Alguns deles são admiráveis, mas nunca deliciosos.
As idéias de classificação, de conservação e de utilidade pública, que são justas e Claras, têm pouca relação com as delícias."

Paul Valéry(1)


O
Museu da Cidade de São Paulo surge como o espelho revelador da metrópole que não cessa de crescer. Seu objetivo é apresentar as relações específicas do homem com o real em sua totalidade material e imaterial, natural e cultural, passado e presente - prevendo ainda o futuro, com inteligência e criatividade. Nasce como a grande tela de extroversão do Departamento do Patrimônio Histórico/ DPH, da Secretaria Municipal de Cultura/ SMC.

As origens do DPH vêm do início da década de 30, quando - reunidos em torno de uma mesa, num apartamento da avenida São João - alguns intelectuais paulistas, entre eles Mário de Andrade, Sérgio Milliet e Paulo Duarte, deram linhas gerais do que viria a ser o Departamento de Cultura da Municipalidade de São Paulo. (2)

Paulo Duarte foi quem escreveu o primeiro anteprojeto - enviado ao prefeito Fábio Prado em 1935, que o aprovou - do Departamento de Cultura e Recreação da Prefeitura Municipal de São Paulo. Através do Ato no. 86 criava-se o Departamento e nomeava-se Mário de Andrade seu primeiro diretor.

"Foi um trabalho de louco", rememorou tempos depois Paulo Duarte. Uma febre de pesquisas, paleógrafos espiolhando gatalhufos do século XVI. Engenheiros construindo novos parques; o coral paulistano duro de nascer, a biblioteca municipal fazendo coisas que não fazia há anos: comprando livros. Como ainda éramos bobos! Mas que bobagem de-li-ci-o-as, como dizia Mário, encompridando as sílabas" (2).

Com a ditadura do Estado Novo, desabava o feliz sonho cultural do grupo paulistano. Paulo Duarte foi exilado e Mário de Andrade demitido da diretoria do Departamento, massacrado já pela incompreensão burocrática.

Pelo Decreto-Lei no. 33, criou-se em 1945 a Secretaria de Cultura e Higiene, vinculando-se a ela o Departamento de Cultura e suas divisões. Em 1975 foi criada a Secretaria Municipal de Cultura, pelo Decreto-Lei 8204, figurando o Departamento do Patrimônio Histórico como um de seus órgãos. O DPH era, na verdade, a recuperação da Divisão de Documentação Histórica e Social, que, apesar da consciência e dos cuidados de Mário de Andrade e seus amigos, foi relegada a segundo plano em secretarias.

Já como DPH, o departamento assume seu papel de zelar pela memória paulistana, preservando os testemunhos históricos da cidade (documentação escrita, iconográfica, artefatos e obras de arte, imóveis e ambientes significativos) e divulgando-os ao público através da criação de um acervo sistematizado, da organização de pesquisas, exposições de objetos diversos e da coordenação de atividades museológicas e museográficas.

Sua composição, mantida até hoje, prevê três divisões técnicas - Divisão do Arquivo Histórico, Divisão de Iconografia e Museus e Divisão de Preservação - além de uma Divisão Administrativa. A equipe técnica da Divisão de Iconografia e Museus responde pelo Museu da Cidade de São Paulo, conforme expresso no Decreto no. 33 400 de 15 de julho de 1993, que o criou.

"...Mas nossa herança é esmagadora. O homem moderno é tanto extenuado pela enormidade de seus meios técnicos, quando é empobrevido pelo próprio excesso de suas riquezas. O mecanismo dos dons e dos legados - a continuidade da produção e das aquisições - , e esta outra causa de aumento relacionada às variações da moda e do gosto, no seu retorno às obras que haviam sido desprezadas, concorrem sem descanso para a acumulação de um capital excessivo e portanto sem utilidade". (3)

Difícil pensar-se um novo modelo de "museu da cidade", que apresente e conjecture seus sonhos, sem uma política cultural definida. E num prazo tão exíguo como o desta instalação. Menos de dois meses para a concepção e realização. Mas talvez aí estivesse o grande desafio de se implantar o Museu da Cidade de São Paulo, reflexo da cidade inteira e de seus fragmentos. Criar, continuar criando e emitindo ´ecos originais´no grande caos metropolitano.
Das discussões abertas com a intelectualidade e a sociedade civil como um todo, pretende-se que tome corpo e ganhe dimensão o museu representativo da cidade tão díspar, tão diversificada, tão esplendidamente desvairada (para recapturarmos o espírito do homem que deu forma à cultura paulistana e brasileira; na prática, como diretor do departamento de cultura da cidade e, literariamente, em livros como Macunaíma, crítica do caráter nacional.
Como evento seminal do Museu da Cidade, recuperou-se um período relativamente próximo, quatro décadas atrás (1954), quando São Paulo comemorava com pompas e circunstâncias seus quatro séculos de fundação (1554).
A primeira mostra do Museu da Cidade apresentou os segmentos culturais em destaque e um panorama geral da cidade. No andar superior, como contraponto à mostra iconográfica, uma expressão plástica característica destes anos 90: a instalação ferromodelista do artista Guto Lacaz. Intitulada A Marquesa Elétrica, reproduz os percursos que a Marquesa de Santos "faria" naquele tempo e recinto.
A idéia geral do DPH foi criar um Museu da Cidade que superasse o conceito de "oficina da mente", e fosse um espaço criativo, de lazer e divertimento. Crianças e adultos de todas as faixas etárias e sociais aprovaram a lúdica inserção.

"Ou então, fazemo-nos eruditos. Em matéria de arte, a erudição é uma espécie de defeito: esclarece o que não é o mais delicado, aprofunda o que não é essencial. Ela substitui suas hipóteses à sensação, sua memória prodigiosa à presença da maravilha; e anexa ao museu imenso uma biblioteca ilimitada. Vênus transformada em documento" (4)

Conforme destacou a museóloga Mathilde Bellaigue, "se a museologia pode emprestar da ciência uma abordagem sistêmica, ela pode emprestar da poesia uma abordagem globalizante. Esta procede de certa condensação da linguagem, seja ela literária ou plástica. É só reler Bachelard(5) : a consciência poética é uma consciência criadora de imagens. Apostar tudo na imagem (no sentido amplo), convocar também a fantasia, não é vergonhoso para um museógrafo...Com efeito, quem era Mnemônica, mãe das musas e dos museus? Aquela que possuía a memória, ou sejam na época arcaica, a que tinha o poder de abarcar com um único olhar o passado, o presente e o futuro. E, portanto, de saber a totalidade das coisas. Era esse o dom que ela concedia ao poeta - ao aedo - o que decifra o invisível e faz, com seu canto, existir o que é." (6)

O Museu da Cidade de São Paulo desenvolverá seu próprio modelo de gestão poético-cultural e invadora através de inúmeras atividades. Já deu início a esta aventura com um trabalho de resgate da memória oral, ciclos de debates com representantes de vários segmentos, publicações, além de inúmeras intervenções artísticas, lítero-musicais, radiofônicas e o projeto Teatral Paulista.

O Museu da Cidade de São Paulo é uma semente lançada no centro histórico da metrópole de hoje e que, se bem cuidada, produzirá infindáveis frutos para a cidade inteira e por toda a eternidade, pois como disse o poeta

"já que não posso ser moderno
agora serei eterno". (7)


(Artigo publicado originalmente na publicação Cidade - Revista do Museu da Cidade de São Paulo/ Ano I no. 1 DPH São Paulo 1994)


1- VALÉRY Paul O Problema dos Museus. São Paulo 1993.
2- Boletim do Departamento do Patrimônio Histórico São Paulo 1985.
3- VALÉRY Paul idem
4- BACHELAR Gaston L´Eau et lês rêves. Essai sur l´imagination de la matiére.Corti , Paris 1991.
5- BELLAIGUE Mathilde O Desafio Museológico Paris 1992.
6- ANDRADE Carlos Drummond Obras Completas Nova Fronteira, Rio de Janeiro 1993.
7- VALÉRY Paul idem
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