algumas apresentações

 


O sonho como alimento dos poetas

"Demasiadamente tarde, conheci a boa consciência, no trabalho alternado das imagens e dos conceitos, duas boas consciências, que seriam a do pleno dia e a que aceita o lado noturno da alma".


Gaston Bachelard
Poétique de la rêverie (1)






Não é de hoje q podemos e devemos reverenciar os predicados amplos das mulheres, assim como dos espelhos. Talvez seja este o modo de aludirmos à Poesia, como forma convincente de exercer-se a Filosofia através da Arte, seguindo a trilha de tantos que pensaram com paixão sobre seres e coisas.

Ontem mesmo passei horas de supremo enlevo com a ingênua e divertida genialidade de Zica Bergami, 89 anos incompletos, compositora, desenhista, personalidade única, de modo que não podemos ignorar este patrimônio ímpar da Paulicéia.
Agora me pedem para apresentar este encontro de quase uma dezena de artistas que - sinceramente - me levam a concluir que, neste território da criação, as mulheres, em breve, ocuparão os melhores espaços.
Não é de hoje que as mulheres brasileiras se fazem presentes com destaque no campo das artes visuais. Num rápido lembrar pode-se citar Tarsila, Lygia Clark, Maria Martins e, mais recentes, as atuações repletas de bons momentos de Tomie Ohtake, Amélia Toledo, Regina Silveira e Carmela Gross. Para não nos estendermos muito na seleção.

A generosidade das organizadoras da presente proposta concedeu-me até o direito de indicar um outro título para o que elas já denominavam como "Mercadorias de Sábado". Prefiro manter o título escolhido pelas artistas, por motivos vários. E refletir sobre ele.

Concebido para acontecer na rua Dr. Melo Alves, uma simpática via pública no coração comercial dos Jardins, o evento propõe questões diversas e sutis para o maravilhar dos passantes e o, hoje raro, senso analítico dos intelectuais da visualidade.

Mais uma vez a arquiteta do projeto é a artista plástica e curadora Lucia Py, que atua há alguns anos com o grupo. O processo dessa intervenção, que durou vários meses, incluiu estudos de autores entre Gaston Bachelard, Joseph Campbel e Gilles Delleuze, além de uma sintonia com o que se produz de mais contundente na arte contemporânea. Estes estudos sempre foram acompanhados de intensa produção de cada uma das artistas que apresentam a síntese destes esforços em três modalidades:

1. os ícones e as imagens emblemáticas de cada uma das artistas foram trabalhados e estarão dispostos em painéis modulados que podem ser manipulados como em um jogo com figuras. Estes símbolos, com formas, texturas e vários elementos refletem questões filosóficas, exercícios de pensamento ou mergulhos poéticos inerentes aos seus universos pessoais.
2. num espaço que se pode considerar mais convencional, como o de qualquer galeria de arte, são expostas obras destas artistas, sempre conectadas visual ou conceitualmente aos painéis do outro segmento.
3. por último, o que considero o show principal, o grande achado na proposta de Lucia Py e das artistas, é a criação da figura hilária que corresponde ao universo mítico e imaginário das artistas. Personagens compostas muitas vezes com requintes que lembram fantasias de carnaval veneziano, estas figuras remetem ao lado louco, poeta, boêmio que habita cada um de nós. No caso em questão, vão muito mais longe. Reciclam o condicionamento da loucura em hospitais psiquiátricos, instigam para o rompimento com as neuroses do mundo atual, remetendo aos desvios psicológicos perseguidos em várias épocas e sociedades. E, obviamente, todas e muitas interpretações que se quiser exercitar.

Ao desvendar estes tão intrincados labirintos da genialidade e da loucura diuturna, esta sutil fronteira entre o saber-se e o perder-se , a exposição apresenta a produção destilada de 9 artistas inquietas. O título poderia bem ser "mercadorarorarebit" ou "camaleoas da arte", numa alusão aos camelôs e às leoas, tanto como à melhor tradição dos vendedores ambulantes de muitos tempos e povos, numa homenagem aos que questionam as sociedades com seus modos estranhos, com suas aparências bizarras, com suas indicações de que ousar é preciso, viver condicionado não é preciso.
Conjunto de ações - obras que refletem como espelhos estes espíritos femininos, comprovando a máxima de Bachelard que diz ser "a Poesia uma metafísica instantânea".
É isto que estas 9 artistas realizam com grande competência, abrindo as fronteiras do fazer plástico, mostrando que fazer arte é "desatar angústias", mas também a maneira de proporcionar uma grande fonte de alegria, movida à sonho e inteligência.
"Mercadorias de sábado" aconteceu aos sábados, na rua Doutor Melo Alves e, durante a semana, na galeria Rarebit, espaço raro, de beleza e prazer, coordenado com paixão pela arquiteta Mônica Uint que, com Lucia Py, merece os méritos deste espetáculo. São Paulo merece e precisa de mais iniciativas de sensibilidade e inteligência como esta.

(1) BACHELARD Gaston - La Poétique de ka rêverie. PUF / Paris 1961

Adriana da Conceição elabora alimentos para o espírito com formas visuais, signos pescados, peixes - metáforas que navegam no espaço real, páginas bíblicas incrustradas como bibelôs dentro de marmitas de alumínio barato. Flores de palha, fitas de devoção das santas do pau oco, intestinos da alma, caixa de culto sincrético, a fé de sêo Romão transferida para grande tela, para a rua larga. S´ntese do auto-descobrir-se, a arte de Adriana da Conceição permite exercitar-se o auto-saber, a consistente caminhada para o ver além, enxergar com olhos d'alma, janelas da vida. Uma artista floresce em um campo de possibilidades coletivas.
Além da relação dualista, a qual observou bem Chaida Sans, bbendo nas águas fenomenológicas de Martin Buber e na filo-poesia de Gaston Bachelard, a sensibilidade artística de Marlene Passarella transmite noções de descoberta e iluminação.
Seu tabuleiro de oferendas não tem lugar para supérfluos, mas sim para cores da revivificação, suportes para a elevação interior. O todo e parte estão ali. Gomos, sementes, mexericas, cor laranja, cor do por do sol, do sol nascente. Do adocicado pomar de vertigens a certeza sabatina: somos todos "tupis tangendo alaúdes" (aput Mário de Andrade)
Lucy Salles trabalha projetos monitorados por Lucia Py desde 1997, depois de período acompanhada por Carmela Gross. Antes se preparou para atuar em vários segmentos e técnicas, desde Desenho e Pintura com Waldemar da Costa, depois com Fajardo, gravura em metal com Evandro Jardim e Branca Oliveira e Linguagem Visual com Julio Plaza.
Hoje ela produz em diversas mídias, mas tem como pátio de resistência suas ações compostas, como a deste Merca dor ias de Sábado. Iconógrafa do intimo humano, Lucy macera cerejas como quem pinta pinturas Ze. Em sua sede de artista, a cereja é matéria prima levda às ruas e parques em ações solitárias ou coletivas, porém sempre movidas por inelutáveis paixões, como o angustiante sangue que brota nesta hora nefasta.
Sonia Talarico parece dizer-nos que "sonhos não envelhecem jamais". Mais que sonhos, ela oferece retornos ao centro da vida, ao centro dos mundos, vértice de víscera floral que desabrocha para exalar pólen, brancura, pernas postiças, bonecas de pano e entretela. Corpos, copos, copas de árvores floridas. Vulto vulvar!
Ceramista primorosa, de arte que serve para muitos fins e de serviços artísticos que elevam as almas, Sonia trabalha a temperaturas altíssimas, mas é capaz de retardar a maturidade para confirmar "a jocosidade de alguém que cresceu peramanecendo criança". Conto de fábulas, estar no mundo rdescobrindo a si mesma, ela é fada que domina a cor e a forma, bastando a si e aos que desjam descobrir novos gestos.
Em Nome de Deus, O Mote Rei, As ilhas cabem como nome de livros, flimes e certas obras conceituais de Thaís Gomes. Com o grupo, acompanhado pela artista e curadora Lucia Py, ela tem percorrido espaços do Brasil e do mundo, sempre com a ação voltada para objetos que duplicam sentidos e instalações que propõem equações modernas.
Uma de suas amnias: viajar pelo mundo visitando museus e fazer cursos de História da Arte. À par isso, constrói com tranquilidade sua trajetória de revelações,imagens refletidas no espelho, enigmas. Cria figuras reais, ilhas que isolam, quando não são propostas como a de gora, "dançarinas moedas", "arremessadas como lantejoulas, por sobre seus sábios ombros" (aput James Joyce)
De um vaso de flores pintado com inspiração até um pé-objeto em parafina que se abre em segredos, Carmen Gebaile deixa suas pegadas pelos territórios da Arte e do Pensamento. Ela elegeu há algum tempo, como seu principal ícone, "pés humanos", que possuem simbologias variadas de acordocom cada cultura. São atraentes para primitivos e refinados, por estarem ligados à origem, ao princípio da vida e também pelo atrativo sexual. Pés com asas, como dos anjos descritos por Dionísio, o Areopagita, ou pés enfaixados, chineses, representantes de elevda sutileza sensual. Gebaile alcança com este símbolo a síntese das pegadas invisíveis do Buda, numa continuidade de discurso iniciado com os rastros das serpentes e as sutis passagens, registradas como as próprias rotas do sentir.
O sentimento do mundo é como método na obra de Cecília Stelini. Ela tem experimentado todas as possibilidades da arte contemporânea, utilizando técnicas artesanais antigas e procedimentos atuais, incorporando apropriações e soltando a imaginação para alcançar um resultado único, aquele que identifica a grande arte de um tempo e lugar. Stelini apresenta nesta ocasião a própria codificação de seu processo artístico, espelho de sua individualidade, refletido na rua e no espaço da galeria. Na grande tela estão os 78 signos reunidos, numa sucessão de fragmentos, representando suas vertentes. O coração como símbolo, sagrado ou não, o amor e suas derivações como suporte basilar de sua obra.
A representação de Ana de Almeida perscruta o milagroso dom da Maternidade e o suporte inato da Sedução. Com estes elementos ela constrói sua rede, um conjunto de imagens que se apóiam nos pássaros de pureza, na dualidade construída com cores que passeiam entre o negro, o vermelho e o branco. Sua figura hilare carrega pombas e talismãs, é guerreira e remete aos mitos do Candomblé. De novo a fé movendoa a Arte, questionando seus fatos com a força e os dogmas da religiosidade. As águas subterrâneas trazem a metáfora que aponta para o que habita no mais profundo do ser, poço destampado, cadeado travado, necessidade de baldear verdade e querer.

 

 

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