algumas apresentações

 


Mestre Molina cria brinquedos animados
que são pura arte e cultura popula
r


Bar dos trabalhadores braçais, 1986 (detalhe)
1,61 x 0,75m

Vida na Roça, 1980 (detalhe)
1,48 x 0,84m

Marcenaria Natal , 1984 (detalhe)
1,56 x 1,90m

Serralheria Brasil Moderno 1981 (detalhe)
1,50 x 0,88m

Cardosinho, Dona Romana do Tocantins, Heitor dos Prazeres, José Antonio da Silva, Mestre Vitalino, Chico da Silva, Nhô Caboclo, Chico Tabibuia, Manuel Graciano, Clã Celestino, Mestre Dezinho, Mestre Noza, Mestre Saúba, Adalton Lopes, Lourenço de Tracunhaém, Elias dos Bonecos, Galdino do Alto do Moura, Mirian Inês da Silva, Paulo Pedro Leal, Agnaldo Manoel dos Santos, Mestre Guarani, Julio Martins da Silva e,entre outros, Artur Pereira, Isabel Mendes da Cunha, Waldomiro de Deus Souza, Zica Bergami.

O Brasil tem grande número de criadores geniais que fazem parte dessa importante constelação de artistas populares. Além dos nomes mencionados aqui, outros podem constar dessa seleção e, entre eles, é mais do que justo incluir-se Mestre Molina.
Na recente exposição Pop Brasil - A Arte Popular e o popular na Arte(1) , sob nossa curadoria, resgatou-se um momento basilar destas táticas culturais, a Missão de Pesquisas Folclóricas(2) , de 1938. Idealizada por Mário de Andrade, então o primeiro diretor do Departamento de Cultura da cidade de São Paulo, a missão realizou o que parece ter sido o primeiro levantamento metódico de uma cultura de profícua riqueza e matizes próprios, que já sugeria a impressionante complexidade que compõe a cultura popular brasileira.

Os anais desta expedição, assim como as viagens anteriores do autor de Macunaíma, não mereceram até hoje a visibilidade ideal, porém tem balizado e servido de referência a quem pretenda ingressar neste vasto território. Depois de ter viajado algumas vezes ao Nordeste e percebido o tesouro cultural ali existente, Mário designou para chefiar a missão o arquiteto e aprendiz de etnógrafo Luis Saia, então com 27 anos, remanescente de um curso sobre etnografia e folclore ministrado por Dina Lévi-Strauss, no próprio Departamento de Cultura, em 1936.

Se, por um lado, segmentos culturais representativos das elites econômicas desprezaram por longos períodos as manifestações da cultura popular, considerando-as "incultas", a verdade é que, em alguns autores considerados eruditos, estas manifestações passaram a ser correntemente assimiladas. Até os dias de hoje, quando observo os muitos recicladores do samba de coco, por exemplo, não deixo de lembrar do memorável Chico Antonio, originalíssimo criador popular que encantou Mário de Andrade quando de suas viagens pelo Nordeste do país.

Sem dúvida, Mário de Andrade foi o primeiro grande estudioso e documentarista do folclore e da cultura no Brasil. Mário Pedrosa penetrou mais timidamente por estas searas
e deixou considerações preciosas. Mário Schenberg, por sua vez, sempre valorizou a arte ingênua, ou primitiva, como fundamental no contexto de nossas artes visuais. Mas além destes três Mários, outros nomes são fundamentais, nas obras que deixaram, para o conhecimento autêntico desse viés de nossa cultura: Luis da Câmara Cascudo, Clarival do Prado Valladares, Darcy Ribeiro, Franklin Cascaes, Gilberto Freyre, Oneyda Alvarenga, Nina Rodrigues, Jacques Van de Beuque, José Ramos Tinhorão e Lucien Finkelstein, entre vários outros.

Na I Bienal Internacional de São Paulo, em 1951, um júri presidido pelo crítico inglês Herbert Read (1893-1968) premiava o pintor carioca Heitor do Prazeres(3) , que chegaria a desenvolver uma breve carreira internacional. Nas edições seguintes da Bienal e até 1969, diversos outros artistas de característica ingênua ou primitiva foram destacados: a cearense, radicada no Rio de Janeiro, Grauben Monte Lima (1889-1972), a piauiense Elisa Martins da Silveira e o paulista José Antonio da Silva (1909-1996), sendo que este último chegou a merecer uma sala especial na XXVII Bienal Internacional de Veneza.

Lembramos aqui estes fatos no âmbito das artes plásticas, remetendo ao texto de Geraldo Edson de Andrade, para demonstrar que longe da discriminação que sofre ultimamente em alguns segmentos pseudo-vanguardistas, a arte brasileira produzida pelas camadas mais populares já conviveu em nível de igualdade com os artistas eruditos, nacionais e internacionais.

As "geringonças" do Mestre Molina podem ser compreendidas como bancadas onde um conjunto de bonecos são movidos por um motor. Em geral são cenas que representam aspectos de um cotidiano possível em algum tempo e lugar. São marcenarias, serralherias, parques de diversões, cenas de vida na roça, bares populares. Mas, ao observarmos com atenção, podemos apreciar detalhes surpreendentes, minúcias e sutilezas incríveis, que demonstram o gênio e a engenhosidade por trás das instalações.

Artistas populares que trabalham com bonecos em movimento não são muitos no Brasil.
Ao voltarmos no tempo lembramos de antigas cenas com figuras em movimento, em geral de origem européia, bonecos desenvolvidos para teatros populares ou para os tradicionais presépios. O Nordeste brasileiro é a região onde estas manifestações resistiram até hoje, com mais vigor e renovação, principalmente no teatro de mamulengo - do qual Mestre Saúba, de Pernambuco, é uma das maiores referências - e em brinquedos populares, resultantes dessa tradição, da qual Mestre Molina é, em nossa opinião, o maior expoente.

Pouco lembrado, mesmo na literatura especializada, Mestre Molina é, no entanto, um símbolo forte deste maravilhoso universo de criadores populares do Brasil, exemplo do excepcional engenho e da criatividade de nosso povo. Ele só conseguiu manifestar de fato sua vocação aos 52 anos de idade e, nos trinta anos seguintes, desenvolveu uma obra extremamente pessoal distribuída, principalmente, em vinte bancadas de várias dimensões.

Nestes suportes, onde todas as gambiarras e improvisos eram permitidos em nome do sonho, ele projetou, desenhou, esculpiu e contou histórias que refletem a tradição das pequenas cidades, a vida na roça, o cotidiano da gente simples, o trabalho cotidiano. Tudo construído com os recursos e materiais disponíveis. Reciclou matérias e produtos diversos, recuperou madeiras, latas, borrachas, cordas, mas não deixou de render-se, quando possível, às facilidades da vida moderna ao utilizar o silicone, o gesso e tecidos sofisticados como a seda.

Com uma dramática trajetória de vida(4) , este homem simples nascido na cidade paulista de Bocaina, perambulou pelo Brasil e chegou até a Bolívia em busca de um modo de manifestar seus dons criativos. Despertado, ainda criança, para as artes manuais, a total falta de orientação fez com que só em idade já avançada descobrisse seu meio de expressão e a possibilidade de criar algo "diferente".

Um aspecto fundamental em seu trabalho é, sem dúvida, a narrativa. Contando estórias cotidianas e mostrando situações simples, mas com movimentos, ele alcançou a condição de autêntico artista popular. A animação, outro diferencial importante em sua obra, ele desenvolveu com dispositivos que impressionam pela rusticidade, mas que mesmo na precariedade adquirem funções com o auxílio de polias e roldanas, barbantes e cordas que, acionados por um simples motor, promovem movimentos seqüenciais que imprimem graça e caráter inusitado aos conjuntos de figuras.

As geringonças de Mestre Molina são um incrível exercício para a mente, um bálsamo para o espírito, conseguem alegrar crianças e jovens, assim como emocionam e encantam pessoas de todas as idades. Detalhes sutis são percebidos: a cordinha provoca um gesto do braço que bate com o martelo, que por sua vez aciona um dispositivo que movimenta um outro personagem. Com um toque de humor e detalhes expressivos, Molina imprimiu ritmo e sentimento às suas figuras, que não perdem a expressividade mesmo com a precariedade da construção e a rusticidade dos materiais. Nas geringonças de Molina a estética não suplanta a invenção, nem o pragmatismo aniquila a emoção.


Num dos conjuntos, intitulado "Bar dos Trabalhadores Braçais", dois garçons tentam erguer um homem que, embriagado, desmaia entre o aglomerado de fregueses. A cena lembra, pela plasticidade e as fortes cores, um drama circense dos anos 40, daqueles que aconteciam entre as apresentações de mágicos, palhaços, trapezistas.

A arte de Mestre Molina continua despertando a atenção e a sensibilidade de um público crescente, sem limites de idade ou de condição social. É unânime o parecer favorável sobre sua impressionante criatividade e seu gênio realizador. Para construir suas geringonças ele usou muitas vezes madeira retirada, com formão e pé de cabra, de sofás e móveis descartados, aproveitou polias, roldanas, cilindros, ganchos, cordas e barbantes descartados. Trabalhou sempre com a técnica do improviso, com um imprescindível "jeitinho", num modo destrambelhado e pessoal de construir traquitanas graciosas.

A singeleza e a engenhosidade da obra deixada por Mestre Molina merece ser apreciada, registrada e conservada para as próximas gerações, testemunho que é do espírito repleto de criatividade e invenção do povo brasileiro. Suas bancadas são objetos de arte que cumprem a função de divertir e fazer pensar e isso ocorre com uma multiplicação de sorrisos, com a satisfação das curiosidades e, até mesmo, com aplausos. E, sem sombra de dúvida, era isso que buscava Manuel Josette Molina, quando criou sua primeira bancada de bonecos animados por uma pequena hélice. Ele cumpriu,de fato, sua brilhante missão de construir uma arte diferente do que habitualmente via e se tornou um nome importante na fabulosa constelação de artistas populares do Brasil.

Paulo Klein
Dezembro de 2002
Crítico de Arte e Escritor
Association Internationale des Critiques d´Art
Associação Brasileira de Críticos de Arte
Associação Paulista de Críticos de Arte

(1) VÁRIOS Autores - Pop Brasil: A Arte Popular e o popular na Arte. Catálogo da exposição que apresentou 212 obras de 98 artistas que produziram Arte Popular ou que utilizam o popular na Arte Contemporânea. No Centro Cultural Banco do Brasil, São Paulo, entre Julho e Agosto de 2002.
(2) SANDRONI, Carlos - Notas sobre Mário de Andrade e a Missão de Pesquisas Folclóricas de 1938 in Revista do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional no. 28. - Arte e Cultura Popular. 1999.

(3) ANDRADE, Geraldo Edson de- A Arte Naif no Brasil, Empresa das Artes, São Paulo 1998.

(4) CALDAS, Luiz Albino - Vida e arte de Manoel Josette Molina, biografia inédita com apresentação do jornalista Francisco Ribeiro do Nascimento.

 

 
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