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Cardosinho,
Dona Romana do Tocantins, Heitor dos Prazeres, José
Antonio da Silva, Mestre Vitalino, Chico da Silva,
Nhô Caboclo, Chico Tabibuia, Manuel Graciano,
Clã Celestino, Mestre Dezinho, Mestre Noza,
Mestre Saúba, Adalton Lopes, Lourenço
de Tracunhaém, Elias dos Bonecos, Galdino do
Alto do Moura, Mirian Inês da Silva, Paulo Pedro
Leal, Agnaldo Manoel dos Santos, Mestre Guarani, Julio
Martins da Silva e,entre outros, Artur Pereira, Isabel
Mendes da Cunha, Waldomiro de Deus Souza, Zica Bergami.
O
Brasil tem grande número de criadores geniais
que fazem parte dessa importante constelação
de artistas populares. Além dos nomes mencionados
aqui, outros podem constar dessa seleção
e, entre eles, é mais do que justo incluir-se
Mestre Molina.
Na recente exposição Pop Brasil -
A Arte Popular e o popular na Arte(1) , sob nossa
curadoria, resgatou-se um momento basilar destas táticas
culturais, a Missão de Pesquisas Folclóricas(2)
, de 1938. Idealizada por Mário de Andrade,
então o primeiro diretor do Departamento de
Cultura da cidade de São Paulo, a missão
realizou o que parece ter sido o primeiro levantamento
metódico de uma cultura de profícua
riqueza e matizes próprios, que já sugeria
a impressionante complexidade que compõe a
cultura popular brasileira.
Os
anais desta expedição, assim como as
viagens anteriores do autor de Macunaíma, não
mereceram até hoje a visibilidade ideal, porém
tem balizado e servido de referência a quem
pretenda ingressar neste vasto território.
Depois de ter viajado algumas vezes ao Nordeste e
percebido o tesouro cultural ali existente, Mário
designou para chefiar a missão o arquiteto
e aprendiz de etnógrafo Luis Saia, então
com 27 anos, remanescente de um curso sobre etnografia
e folclore ministrado por Dina Lévi-Strauss,
no próprio Departamento de Cultura, em 1936.
Se,
por um lado, segmentos culturais representativos das
elites econômicas desprezaram por longos períodos
as manifestações da cultura popular,
considerando-as "incultas", a verdade é
que, em alguns autores considerados eruditos, estas
manifestações passaram a ser correntemente
assimiladas. Até os dias de hoje, quando observo
os muitos recicladores do samba de coco, por exemplo,
não deixo de lembrar do memorável Chico
Antonio, originalíssimo criador popular que
encantou Mário de Andrade quando de suas viagens
pelo Nordeste do país.
Sem
dúvida, Mário de Andrade foi o primeiro
grande estudioso e documentarista do folclore e da
cultura no Brasil. Mário Pedrosa penetrou mais
timidamente por estas searas
e deixou considerações preciosas. Mário
Schenberg, por sua vez, sempre valorizou a arte ingênua,
ou primitiva, como fundamental no contexto de nossas
artes visuais. Mas além destes três Mários,
outros nomes são fundamentais, nas obras que
deixaram, para o conhecimento autêntico desse
viés de nossa cultura: Luis da Câmara
Cascudo, Clarival do Prado Valladares, Darcy Ribeiro,
Franklin Cascaes, Gilberto Freyre, Oneyda Alvarenga,
Nina Rodrigues, Jacques Van de Beuque, José
Ramos Tinhorão e Lucien Finkelstein, entre
vários outros.
Na
I Bienal Internacional de São Paulo, em 1951,
um júri presidido pelo crítico inglês
Herbert Read (1893-1968) premiava o pintor carioca
Heitor do Prazeres(3) , que chegaria a desenvolver
uma breve carreira internacional. Nas edições
seguintes da Bienal e até 1969, diversos outros
artistas de característica ingênua ou
primitiva foram destacados: a cearense, radicada no
Rio de Janeiro, Grauben Monte Lima (1889-1972), a
piauiense Elisa Martins da Silveira e o paulista José
Antonio da Silva (1909-1996), sendo que este último
chegou a merecer uma sala especial na XXVII Bienal
Internacional de Veneza.
Lembramos
aqui estes fatos no âmbito das artes plásticas,
remetendo ao texto de Geraldo Edson de Andrade, para
demonstrar que longe da discriminação
que sofre ultimamente em alguns segmentos pseudo-vanguardistas,
a arte brasileira produzida pelas camadas mais populares
já conviveu em nível de igualdade com
os artistas eruditos, nacionais e internacionais.
As
"geringonças" do Mestre Molina podem
ser compreendidas como bancadas onde um conjunto de
bonecos são movidos por um motor. Em geral
são cenas que representam aspectos de um cotidiano
possível em algum tempo e lugar. São
marcenarias, serralherias, parques de diversões,
cenas de vida na roça, bares populares. Mas,
ao observarmos com atenção, podemos
apreciar detalhes surpreendentes, minúcias
e sutilezas incríveis, que demonstram o gênio
e a engenhosidade por trás das instalações.
Artistas
populares que trabalham com bonecos em movimento não
são muitos no Brasil.
Ao voltarmos no tempo lembramos de antigas cenas com
figuras em movimento, em geral de origem européia,
bonecos desenvolvidos para teatros populares ou para
os tradicionais presépios. O Nordeste brasileiro
é a região onde estas manifestações
resistiram até hoje, com mais vigor e renovação,
principalmente no teatro de mamulengo - do qual Mestre
Saúba, de Pernambuco, é uma das maiores
referências - e em brinquedos populares, resultantes
dessa tradição, da qual Mestre Molina
é, em nossa opinião, o maior expoente.
Pouco
lembrado, mesmo na literatura especializada, Mestre
Molina é, no entanto, um símbolo forte
deste maravilhoso universo de criadores populares
do Brasil, exemplo do excepcional engenho e da criatividade
de nosso povo. Ele só conseguiu manifestar
de fato sua vocação aos 52 anos de idade
e, nos trinta anos seguintes, desenvolveu uma obra
extremamente pessoal distribuída, principalmente,
em vinte bancadas de várias dimensões.
Nestes
suportes, onde todas as gambiarras e improvisos eram
permitidos em nome do sonho, ele projetou, desenhou,
esculpiu e contou histórias que refletem a
tradição das pequenas cidades, a vida
na roça, o cotidiano da gente simples, o trabalho
cotidiano. Tudo construído com os recursos
e materiais disponíveis. Reciclou matérias
e produtos diversos, recuperou madeiras, latas, borrachas,
cordas, mas não deixou de render-se, quando
possível, às facilidades da vida moderna
ao utilizar o silicone, o gesso e tecidos sofisticados
como a seda.
Com
uma dramática trajetória de vida(4)
, este homem simples nascido na cidade paulista de
Bocaina, perambulou pelo Brasil e chegou até
a Bolívia em busca de um modo de manifestar
seus dons criativos. Despertado, ainda criança,
para as artes manuais, a total falta de orientação
fez com que só em idade já avançada
descobrisse seu meio de expressão e a possibilidade
de criar algo "diferente".
Um
aspecto fundamental em seu trabalho é, sem
dúvida, a narrativa. Contando estórias
cotidianas e mostrando situações simples,
mas com movimentos, ele alcançou a condição
de autêntico artista popular. A animação,
outro diferencial importante em sua obra, ele desenvolveu
com dispositivos que impressionam pela rusticidade,
mas que mesmo na precariedade adquirem funções
com o auxílio de polias e roldanas, barbantes
e cordas que, acionados por um simples motor, promovem
movimentos seqüenciais que imprimem graça
e caráter inusitado aos conjuntos de figuras.
As
geringonças de Mestre Molina são um
incrível exercício para a mente, um
bálsamo para o espírito, conseguem alegrar
crianças e jovens, assim como emocionam e encantam
pessoas de todas as idades. Detalhes sutis são
percebidos: a cordinha provoca um gesto do braço
que bate com o martelo, que por sua vez aciona um
dispositivo que movimenta um outro personagem. Com
um toque de humor e detalhes expressivos, Molina imprimiu
ritmo e sentimento às suas figuras, que não
perdem a expressividade mesmo com a precariedade da
construção e a rusticidade dos materiais.
Nas geringonças de Molina a estética
não suplanta a invenção, nem
o pragmatismo aniquila a emoção.
Num dos conjuntos, intitulado "Bar dos Trabalhadores
Braçais", dois garçons tentam erguer
um homem que, embriagado, desmaia entre o aglomerado
de fregueses. A cena lembra, pela plasticidade e as
fortes cores, um drama circense dos anos 40, daqueles
que aconteciam entre as apresentações
de mágicos, palhaços, trapezistas.
A
arte de Mestre Molina continua despertando a atenção
e a sensibilidade de um público crescente,
sem limites de idade ou de condição
social. É unânime o parecer favorável
sobre sua impressionante criatividade e seu gênio
realizador. Para construir suas geringonças
ele usou muitas vezes madeira retirada, com formão
e pé de cabra, de sofás e móveis
descartados, aproveitou polias, roldanas, cilindros,
ganchos, cordas e barbantes descartados. Trabalhou
sempre com a técnica do improviso, com um imprescindível
"jeitinho", num modo destrambelhado e pessoal
de construir traquitanas graciosas.
A
singeleza e a engenhosidade da obra deixada por Mestre
Molina merece ser apreciada, registrada e conservada
para as próximas gerações, testemunho
que é do espírito repleto de criatividade
e invenção do povo brasileiro. Suas
bancadas são objetos de arte que cumprem a
função de divertir e fazer pensar e
isso ocorre com uma multiplicação de
sorrisos, com a satisfação das curiosidades
e, até mesmo, com aplausos. E, sem sombra de
dúvida, era isso que buscava Manuel Josette
Molina, quando criou sua primeira bancada de bonecos
animados por uma pequena hélice. Ele cumpriu,de
fato, sua brilhante missão de construir uma
arte diferente do que habitualmente via e se tornou
um nome importante na fabulosa constelação
de artistas populares do Brasil.
Paulo
Klein
Dezembro de 2002
Crítico de Arte e Escritor
Association Internationale des Critiques d´Art
Associação Brasileira de Críticos
de Arte
Associação Paulista de Críticos
de Arte
(1)
VÁRIOS Autores - Pop Brasil: A Arte Popular
e o popular na Arte. Catálogo da exposição
que apresentou 212 obras de 98 artistas que produziram
Arte Popular ou que utilizam o popular na Arte Contemporânea.
No Centro Cultural Banco do Brasil, São Paulo,
entre Julho e Agosto de 2002.
(2) SANDRONI, Carlos - Notas sobre Mário de
Andrade e a Missão de Pesquisas Folclóricas
de 1938 in Revista do Patrimônio Histórico
e Artístico
Nacional no. 28. - Arte e Cultura Popular. 1999.
(3) ANDRADE, Geraldo Edson de- A Arte Naif no Brasil,
Empresa das Artes, São Paulo 1998.
(4)
CALDAS, Luiz Albino - Vida e arte de Manoel Josette
Molina, biografia inédita com apresentação
do jornalista Francisco Ribeiro do Nascimento.
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