Mitopinturas

Durante a primavera de 2000, duas exposições em cartaz na cidade, de certo modo, prepararam corações e mentes para a primeira e encantadora exibição solo de Augusto Trzan, em São Paulo.
Uma delas, com curadoria de Emanoel Araújo, ocupou um dos espaços da Pinacoteca do Estado com o título Os Anjos Estão Voltando e reuniu curiosa e diversa iconografia angelical.
A outra, Arte e Erotismo, na galeria de Nara Roesler, compreendeu curadoria de Frederico Morais para o tema que também foi destaque recentemente num dos espaços do Museu de Arte Moderna.

Porém, se as duas coletivas tangenciaram sutilmente a mitologia celestial e a eroticidade, a mostra de pinturas de Augusto Trzan atrai pelo modo competente com que o artista trata os dois temas de forma integrada.
Sem dissimulações, o artista baiano, destes seres tocados por uma vocação surpreendente, mescla motivos recorrentes da pintura clássica e român tica, para uni-los numa entidade hoje rejeitada por dogmáticos da arte atual: a pintura figurativa. Jean Clair, diretor do Museu Picasso, de Paris, defende que o desafio hoje é recompor a figura e o rosto humanos e que a arte dita contemporânea só conseguiu produzir objetos bizarros. (2)
Considerando-se o pensamento de Clair, a pintura de Trzan ajuda a recompor a face humana da arte. Falo aqui de uma arte que, sem medo de ser e fazer feliz quem a contempla, apresenta telas carregadas de magia e ensinamentos, que ousamos chamar de
mitopinturas, numa alusão à assumida craga mitológica que oferecem, ao mesmo tempo que resgatam a dignidade da arte de uma época em que os pintores eram verdadeiros alquimistas.
É assim que Augusto Trzan trabalha. Com,alquimista moderno. Da cozinha pictórica pesquisas e esboços aquarelados aos temas idílicos, suportes resistentes, tintas e píncéis de qualidade, tudo nele remete à pintura de meados do século XIX, carregada da experiência que vem desde o período renascentista, para resultar uma criação que acumula o conhecimento da arte antiga e moderna.
Guto Trzan, como também é chamado demonstra consciência da situação da arte de hoje ao falar de seu trabalho e do modo como provoca as pseudovanguardas, que sugerem sua obra ultrapassada. Denuncia esse procedimento, muito em voga nos tempos atuaisrejeição a tudo o que não estiver plugado com últimos modelos da arte de ponta internacional. Muitas vezes, estas pseudovanguardas repercutem modismos requentados, sobras dos banquetes passados, farelos do caos estético dos circuitos internacionais.
O que se percebe é que, trafegando na contramão, destas ondas passageiras, Trzan constrói um caminho sólido para sua arte, onde técnica e espírito romântico, racionalidade e domínio cromático, fundem-se para oferecer uma obra carregada de inspiração e conhecimento. Isso, sem descartar ~ ingrediente que ele chama de "uma certa ingenuidade assumida".

São caros à pintura clássica os temas que enriquecem os planos pintados de Trzan, sempre com densa carga de reflexões, mitológicas e sensuais. Temas, aliás, que permeiam a arte que antecede os movimentos modernos, tanto Brasil como no mundo.
Entre dezembro de 1991 e março de 1992 a Pinacoteca do Estado de São Paulo apresentava a belíssima exposição O desejo na Academia 1847-1916, com curadoria de Mesquita.

A proposta era resgatar o veio pouco revelado da arte brasileira, no qual o clima sensual, o desejo ardente, corpos insinuantes ou desnudados, modelavam uma produção alheia aos retratos e paisagens, aos ternas heróicos ou ufanistas.
revolucionário.
Clássico, romântico, sonhador? Eu digo que se trata de um verdadeiro artista contemporâneo pós-tudo, que não se acanha em reler certos ícones da pintura de meados do século XIX, como se preparasse a retomada do figurativismo, na forma de uma passagem para a sobrevivência da arte ameaçadaa por experimentos desconexos. Óbvio que o non sense pós-surrealista a disgusting art, as posturas pós-Dada e pós-Duchamp são espetaculares e conseguem ocupar amplos espaços na mídia e nas cátedras acadêmicas.
Hoje, no entanto, o grande desafio é arriscar numa pintura com aspectos de verdadeira pintura. As mitopinturas de Trzan eqüivalem às "mitologias" de Roland Barthes, que era também atento aos anjos e aos pincéis. Podem ser apreciadas como mitopoemas, tal a dimensão poética que carregam e instauram em nossas retinas.
Mas Guto confessa-se um racional, que acredita que toda obra de arte deve conter um mistério claro que depois de uma série de estudos e esboços meticulosos. Consciente de seus objetivos, persegue seu propósito com perseverança, trabalha a pintura como se fazia em meados do século XIX, mas não perde a sintonia com a realidade atual.
Suas telas dos últimos anos - ele que tem se destacado como eficiente retratista - trazem desde um anjo negro - que lembra os meninos do Pelourinho, Salvador/Bahia - a um casal de serafins em idílio, ou ainda outra dupla de querubins, flutuando entre pombos esvoaçantes. Nas obras Anjo Caído e A Quimera, a luz remete mais à Michelangelo Merisi (Caravaggio, 1573-1610) do que à Fragonard.
Outros instantes dessa poética fascinante e atem poral estão em telas como Eros e Psiqué e O Beijo que, assim como Elegia - que remete à luz edênica e aos dourados solares de Frederick Maxfield Parish (Philadelphia, 1870-1966) -, demonstram que o esforço de Trzan é tão atual como a necessidade que os homens tem do amor, dos mitos e das grandes conquistas.
Leitor atento de Marcel Proust, Machado de Assis, Guimarães Rosa e de poetas de várias épocas, Augusto alimenta-se de sonho e metafisica para executar sua obra que desafia os códigos de nosso tempo.
Depois de desenvolver estudos aquarelados sobre papel, esmera na técnica, segundo diz, para conaisseur algum duvidar de sua excepcional qualidade.

Em paralelo à reflexão que vai fazendo sobre a História da Arte, desvenda com sutileza o sexo dos anjos, constrói seus quadros com extremo capricho, preparando a tela com uma base acrílica especial para tinta a óleo, aplicada em seguida em várias demãos, até atingir uma suave textura aveludada.
O tempo de execução de uma tela pode durar mais de seis meses, período em que trabalha com gesso crê, alvaiade e cola animal, deixando as folhas de ouro por último, isto quando opta por usá-las. Com extremado zelo, trabalha as carnações e os panejamentos como se reconstruísse estes mundos distantes, segundo a segundo.

As pinturas em exibição nesta mostra solo afiançam o percurso de Augusto Trzan desde sua infância dos primeiros desenhos, sua passagem pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia, os ensinamentos com destacados mestres baianos e sua sede de saber, observando a arte internacional.
É com extrema satisfação que recebemos Augusto Trzan e sua arte transbordante de beleza, de mitos e sinais de um sensual amor revigorado. É uma satisfação reencontrarmos estas criaturas celestiais dentro de uma pintura que emana a perfeição de que somos carentes nos dias de hoje.

1 VIANA, Herbert - Santorini Blues (EMI Music, 1998)
2 CLAIR, Jean - A Face da Arte (República, SP, 2000)

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