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O
olhar popular no olho do mundo
'ver bem é entender bem...'
Waldomiro
de Deus (Itagibá - Bahia - 1944) é um artista genuinamente brasileiro,
no seu sentido mais lato, mais fundo, mais profundo. Hoje ele é, sem dúvidas,
uma das maiores expressões do que se convencionou chamar - talvez por comodidade
- de Arte Ingênua. Pobre Arte, Pobre Ingenuidade. Onde ficaram nossos
gênios ingênuos? De família paupérrima, pobre,
pobre, pobre de Marrédeci, Waldomiro trabalhou na enxada, foi pedreiro,
engraxate, mas teimou na habilidade que percebeu ainda criança, de pasmar
as peripécias do mundo com traços rudes e descritivos. |

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Jovem ainda veio
para São Paulo, onde viveu o golpe de 64 e debateu-se na loucura dos Anos
70, figura carimbada que vagava por rua Augusta e adjacências nos anos saudáveis
do Pop. Cabelo black power, calça boca de sino, de Deus foi até
entrevistado no programa da Hebe Camargo, pela polêmica que criou com seus
santos moderninhos. Nossa Senhora de mini-saia, Jesus gay, não dava para
a TFP - Tradição, Família e Propriedade - agüentar.
Foi seqüestrado e abandonado, nu, nas quebradas do Morumbi. Popular e
franco, em sua amável e instantânea comunicabilidade, simples de
Zen mesmo, Waldomiro nos obriga a pensar nas origens dos registros antropomórficos,
nas inscrições rupestres de eras longevas. Mais do que primitivo
ou ínsito, ele é visceral em seu observar de cronista antenado com
a modernidade, perplexo frente aos espantos do mundo. Bósnia, Afganistão,
Iraque, Bin Laden, qualquer tema é tema para os comentários que
brotam de seu imenso sertão interior. Como eu dizia: na década
de 60, WD já era um personagem marcante na Paulicéia, que não
embarcava fácil em seus modos excêntricos, em sua pintura rústica
que teimava em ser provocativa. O teor marcante de sua obra sempre foi um misto
que, ao mesmo tempo em que retratava o Brasil rural, também estampava seu
espanto com as novidades. Espanto do Brasil caboclo com o Brasil moderno.
Referendado por Pietro Maria Bardi (1900-2000) e Mario Schenberg (1914-1990),
dois nomes fundamentais da cultura deste País, Waldomiro teve um grande
apoiador no Marquês Terry Della Stuffa, conhecido arquiteto e decorador
da época. Porém, incompreendido em São Paulo, ele não
se acomodou. Levou um bando de telas para Paris. Na exposição que
realizou lá estiveram presentes Salvador Dali (1904-1989), que deu-lhe
um beijo em consideração e Humberto Eco, encantado com aquela excentricidade
toda, além da atriz Brigitte Bardot, que adquiriu-lhe a pintura intitulada
"Enterro no Ceará". Waldomiro de Deus possui obras em acervos
importantes, como os da Pinacoteca do Estado e o do Museu de Arte Contemporânea
de São Paulo MAC-USP), no Brasil e na Galeria Nacional de Bolonha, na Itália.
Sobre sua odisséia exemplar há o livro biográfico de Oscar
Ambrósio, com o sugestivo título "Os Pincéis de Deus:
Vida e Obra do Pintor Naif Waldomiro de Deus" (Editora da UNESP, 1999).
Paulo
Klein | |