O afeto imantado na obra de Pama Loiola

"Se sonhar é um pouco perigoso, a solução para isso
não é sonhar menos, mas sonhar mais."

Marcel Proust

Uma obra genuinamente afetiva, contrastando com um cenário de violência a incomodar o planeta. Confesso que, de início, senti dificuldade em refletir sobre a obra plástica de Pama Loiola. Acredito que este leve espanto tenha se dado, naquela ocasião, devido à complexidade humana imanente de seu trabalho, aparentemente simples e de fácil acessibilidade, do que propriamente à minha não capacidade em decifrar uma criação artística. Mas, é assim mesmo. Importante, sentirmo-nos humanos frente a uma obra de arte que nos permite essa ascese. E, isso, Pama desperta em mim, como desperta nas sensibilidades mais variadas.

Esse desvelar só se dá, no entanto, ao pensar-se sua obra à luz da filosofia moderna e ao notar-se sinais que as aproxima, como o segredo que ronda a ambas. "Há segredo" , repete Derrida em sua fala sobre as paixões e explica que o segredo " não se dissimula, permanecendo inviolável até quando se acredita tê-lo revelado. Não que se esconda para sempre numa cripta indecifrável, ou atrás de um véu absoluto."

Meu primeiro encontro com Pama - nascida Maria do Carmo Loiola Bessa, no ano de 1950, em Sacramento, Minas Gerais - foi na inauguração de uma exibição coletiva do Mapa Cultural Paulista 2002, realizada na Sala Concourse da Estação Julio Prestes, centro histórico de São Paulo. Eu havia participado do júri de premiação do evento e ela procurou saber minha opinião sobre o que apresentara. Era um painel coberto por retalhos selecionados, com a inserção de fotos de família. Tecidos remendados como fundo, algo sentimental demais, para retratos de indivíduos em períodos distintos de uma história familiar. Recordo a impressão nostálgica, ao mesmo tempo intimista a me invadir, transbordante daquela aura imemorial das fotografias de um passado que não era o meu, mas que envolvia magnificamente meus sentidos. Realçadas pelo fundo decorativo do painel e pelas folhas secas que forravam o piso, percebia essas imagens como "sombras" das muitas folhas, dos muitos retalhos e retratos do meio do caminho , qual e tal as pedras drummondianas. Guardei isso em minhas retinas, quase como um símbolo. Quase como um sonho.

Provocado a comentar sua obra, lembro que sugeri que fizéssemos isso em outra ocasião, fora daquele burburinho de inauguração. Pama ligou-me algumas vezes para conversarmos e não descansou enquanto não visitei seu atelier, acesso ao seu universo pessoal, que agora reconheço como de sofisticada arquitetura sensível. Em seu agradável espaço de trabalho, localizado no Jardim Proença, em Campinas, conheci as origens artísticas e as variações de sua obra. Nunca escondendo as virtudes de sua mineirice, que cita freqüentemente com muito orgulho, introduziu-me com paciência nos meandros de um mundo a ser progressivamente desvendado. Tecidos estampados, cartes de visite, cartões postais e fotografias, com os indeléveis sinais do tempo - eventualmente, um efeito hightec - resgatados como troféus através da meticulosa arqueologia anímica. Essa a obra.

Ao ser interpelada sobre o início de sua atividade como artista, por exemplo, ela saca Walter Benjamin, negando-se a falar com superficialidade sobre temas tão complexos como arte e mercadoria. Expressa a opinião de que o indivíduo não se torna artista, mas nasce artista e se aprimora no próprio ofício, alcançando a condição ideal para traduzir emoções, sentimentos, sensações.

Um giro por seu atelier, onde pude apreciar obras de diversas fases, permitiu notar as principais vertentes irradiantes de seus objetos, instigantes, a congelar momentos de ternas lembranças.
O que se nota, é uma produção artística distribuída, ao menos, em três segmentos. Quando a pintura era um meio a ser revalidado, Pama utilizou a mesma no registro de feiras, festas, mercados, resgatados como elos intrínsecos ao seu passado nos interiores do Brasil.

Sua vontade em resgatar as origens do homem americano, brasileiro, mineiro, levou-a, por outras vias, à arqueo-arte inspirada nas grutas do Vale do Pereaçu, norte de Minas Gerais. A busca dessas referências valorizou suas investigações e vinculou formas criadas anteriormente às escritas de populações remotas, alusivas de per si a outros registros rupestres consagrados, signografias primordiais da humanidade.

Neste ponto remetemos à Merleau-Ponty, exatamente onde o autor de Fenomenologia da Percepção trata do "pensamento do dentro", alertando para o fato de que "a verdade não habita somente o "homem interior", ou melhor - como afirma - "não há homem interior, o homem está no mundo, é no mundo que ele se conhece".
Aliás, na obra anteriormente citada ele diz que "a percepção é sempre uma percepção incorporada, que só é o que é num contexto ou situação específicos. A percepção em-si-mesma não existe".
Na ponta do triângulo do universo de segredos de Pama Loiola abre-se a vasta dimensão de sua arte. Desenvolve hoje uma manifestação pessoal e madura, de extrema poética, fruto das insistentes buscas, pesquisas e de seu dom de perceber a vida. Ao recuperar as investigações arqueológicas, que transfere para uma outra etiologia, uma arqueologia da alma, a artista rediscute instâncias marcantes da contemporaneidade artística, antes já encontráveis em artistas como Max Ernest, em Louise Borgeois, em Anésia Pacheco Chaves, Farnese Andrade e Rubens Gerchman, para lembrarmos ao menos alguns que - na extensão e diversidade de suas obras ou em momentos localizáveis - lançaram mão dessa arqueologia do "afeto familiar" como discurso artístico.

A inquietude de Pama Loiola é fluente como um rio preparando o mar. Estudiosa das possibilidades das artes, observadora que é das atuais táticas midiáticas, ela não se satisfaz apenas em pintar, fotografar, moldar, serrar, pregar, costurar. Afinal de contas, ela é um ser artístico que não se detém com modismos ou contextualizações de estação. É memória e epiderme. Olhar e toque. Fragmentação dos ritos. Essência feminina. É personalíssima em seu gerar pensamentos pertinentes, semear idéias, refletir sobre materiais, ofertar equações transcendentes.

Pode-se dizer até que, mais do que agradar os especialistas, Pama Loiola está interessada em tocar o ser, emocionar e possibilitar transcendência ao homem comum através de sua arte. Sem ranços teóricos, sem doutorados complicados ou complicantes. E ela consegue.


Não queremos dizer aqui que a universidade, onde nos últimos tempos é possível encontrar vários níveis de criatividade artística e intelectual, tenha ignorado a produção recente de Pama Loiola.
Cito, por exemplo, a professora da Unicamp, a também artista plástica Fúlvia Gonçalves, que escreveu em uma introdução:
"A reprodução, às vezes, banaliza a obra de arte, mas no caso de Pama acontece exatamente o contrário. Ela democratiza o trabalho através dos transfers e dos banners".
A manipulação que Pama faz hoje das técnicas de reprodução e o seu modo de atuar com os materiais pesquisados foge às noções meramente fragmentadas e recortadas da pós-modernidade.
Junte-se as várias pontas e percebe-se ainda o quanto de conteúdo filosófico e poético abriga a arte de Loiola.
E quanto sua "linguagem sonha", para lembrarmos Bachelard quando diz: "No sentido geral do substantivo aglomeram-se adjetivos inesperados. Um ambiente novo permite que a palavra penetre não só nos pensamentos mas também nos devaneios. A linguagem sonha".
Impressionante como a obra de Pama Loiola permite, com naturalidade, essa aproximação com A Poética do Espaço , de Gaston Bachelard ou, mesmo, com a teia, de signos e sentimentos, composta de imagens fotográficas, que estrutura, ao mesmo tempo em que imprimem uma chancela de verdade plausível, as idéias de Roland Barthes.

Além de Bachelard e Barthes estão igualmente nesta trama Foulcault e Proust, que com seus imaginários abriram os horizontes sensíveis para uma geografia da afetividade. São sentires que, emanam, paulatinamente, da obra de Pama Loiola.


Como artista, Pama demonstra clara satisfação ao dizer: "Eu tive a oportunidade de observar o quanto a exposição comunica, fala para a alma das pessoas. Há anos venho juntando retalhos de tecidos e fotos antigas por que despertam em mim um enorme encantamento. São fragmentos que grudam como uma segunda pele, fazem recordar certos momentos: as festas populares, as procissões, casamentos e batizados ou, simplesmente, as saudosas brincadeiras."

A exposição "Afetos" reforçou estas convicções da artista quando esteve, entre agosto e setembro de 2002, no MACC - Museu de Arte Contemporânea de Campinas, abrindo para todos nós a arca secreta de Pama. Ela toca a essência das pessoas com suas composições utilizando cartes de visite, imagens postais de crianças de outros séculos, fotografias pessoais, cartas, objetos de recordação. Prossegue desse modo a despertar emoções adormecidas.
Pama Loiola maneja fragmentos recolhidos como quem esculpe o mármore do tempo, forja o ferro das emoções, folheia o ouro das ternuras e afetos. Claro está que seu repertório é suave e conta com o estímulo de uma alma profundamente apaixonada.
Mas não se trata de qualquer Paixão. Da "paixão" de Cristo e seus graus de representação nas sociedades cristãs? Talvez. Ou, melhor posto, da "paixão" que transborda de certos filmes de Almodóvar e que Derrida classificaria de "oferenda oblíqua". Mas entre a lógica e a paixão, entre o raciocínio e o sentimento, para se tratar deste novo rito que é a arte de Pama Loiola, recorro à Adélia Prado quando trata de Santo Agostinho. Ela diz: "Lógica é para a cabeça. A alma pede amor." Isso porque, superadas as aparências, o fato é que, como a poeta mineira mesmo diz: "a lógica de um poema é a mesma de um sonho, é : nenhuma". Pode-se dizer isso sobre a lógica da obra de Pama é a mesma de que se fazem os sonhos.

Paulo Klein
Fevereiro 2003

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