A pintura tonal de Paula Salusse

 

"rosas, rosas, rosas
rosas formosas, são
rosas de mim".

Vinícius de Moraes

"as rosas não falam,
simplesmente exalam
o perfume q roubam de ti".


Cartola

A arte de Paula Salusse acontece em formas suaves e ao mesmo tempo vigorosas, além de demonstrar a necessária sensibilidade que alcança, em sua Pintura, um estágio de promissora performance visual. Isso falando de sua primeira exposição solo.
As telas de Paula Salusse encantam leigos, expertos e troianos. Existem no limite entre a figuração dissimulada e o abstracionismo suavemente lírico, no ton sur ton efusivo, manifesto de tonalidades cromáticas provocativas, segundo ela, inspiradas em aromas e sabores dos ótimos vinhos que tem degustado ultimamente.
Provocativas, porque aguçam nossas retinas e fazem repousar as excitações da vida moderna, quando não excitam-nos na sutil contemplação da arte, não como exacerbação intelectual, mas como prazer sensorial profundo.
Em seu ir e vir, deslizante entre tintas frescas, foscas e oleosas, há o contínuo exercício colorístico povoado de tons herbáceos, vermelhos apaixonados com cromias intensas que exploram as possibilidades de representação das fragrâncias e sabores.
Ao contemplar e projetar composições florais, percebidas muitas vezes em andanças pela Riojas espanhola ou pela francesa Provence, com seus perfumes carregados de sutilezas, ela sugere à nossa sensibilidade a dedicada operação pictórica como reflexo interior, como catarse plena no ofício de ser artista.
Esses planos, pintados em tintas oleosas das melhores procedências, planos muitas vezes monocromáticos, refletem mais o prazer da atividade pictórica do que o êxtase supostamente perpetrado pelas descobertas nos horizontes da arte atual, contaminada e indisposta consigo mesma, quando não abnegada e indigente na perversa realidade do mercado.
A pintura levemente inebriante de Paula Salusse - para metaforizar com o teor dos vinhos de várias safras e procedências - leva-nos a pensar porque os circuitos da arte atual praticamente excluíram a Pintura, o Desenho, a Gravura de seus discutíveis espaços de arte e cultura.
Pensar que, praticamente tudo já foi pintado, ou desenhado ou gravado, que quase tudo já foi visto em termos de Arte, é um procedimento que serve, naturalmente e de igual forma, para justificar a banalização da arte pós-Conceitual, pós-Duchamp, pós-Sensation.
No caso da arte aqui observada, sem medo de ser Pintura, sem medo de ser floral, mono ou policromática, imersa em labor dedicado e necessariamente metódico, detecta-se a fluidez da artista com as reflexões estéticas e até espirituais.
São tons colorísticos que trazem consigo os buquês frutados ou madeirados das vinhas e dos roseirais sentidos a partir do instante em que o vinho tornou-se para ela um elixir da Paixão, como não deixa de ser para pessoas esclarecidas e de bom gosto.
Impressiona o modo como concebe suas peças. Além de um forte fluxo de emoções trazidas pelo vento e pelo pensamento, Paula Salusse reinterpreta os modos de pintar flores, em especial rosas, emprestando elegância e talento progressivos ao motivo que inspirou inúmeros pintores, de formas diversas e em diferentes épocas, lugares, escolas: Claude Monet ( Paris 1840 - Giverny 1926), Paul Cezanne (Aix-en-Provence 1839 -1906), Alberto da Veiga Guignard ( Nova Friburgo RJ 1896 - Belo Horizonte 1962), Georgia O'Keeffe (Wisconsin 1887- Santa Fé 1986), Cristina Canale (Rio de Janeiro 1991), para citarmos apenas alguns nomes que dignificaram esse tema.
De maneira singela e competente, Paula Salusse ingressa no circuito das artes justificando sua ascendência familiar, que já legou-nos o pintor Pedro Eduardo Salusse (Nova Friburgo 1829 - Rio de Janeiro 1914), elogiado em crítica do professor e pintor Rodolpho Amoedo (Rio de Janeiro 1857-1941), o poeta Júlio Mário Salusse (Bom Jardim RJ 1872 - Rio de Janeiro 1948), autor do clássico "Cisnes" e a internacional cantora lírica Bidú Sayão (Rio de Janeiro 1904 - 1999).
Como eles, Paula Salusse orgulha a saga inaugurada por Guillaume Marius Salusse (Tolouse, França 1788 - Nova Friburgo - RJ 1875) e Mariana Joset Salusse ( Fribourg, Suíça 1806 - ?........), pioneiros da Fribourg Brasileira, Nova Friburgo, a Suíça presente na região serrana do Rio de Janeiro.
Falar sobre sua sensível pintura é algo que torna
estimulante a atividade da Crítica de Arte, pois com muito pouco pode-se reconstruir paraísos aparentemente perdidos.

Paulo Klein
07 Novembro 2000

      contato@pauloklein.art.br
pauloklein.art.br - All rights reserved