O Belo além do Labirinto


"Fomos expulsos do centro
do mundo e estamos
condenados a procura-lo
por selvas e desertos e
subterrâneos do Labirinto"
.(1)






Até mesmo mirando as folhagens de verdes intensos e naturais como nos jardins clorofilados de Maurizio Nannucci (2) - ou espiando, através da janela, o verde da Villaboim, repenso a plenitude amazônica refletida na obra visual de Valdir Sarubbi, onde todas as cores vivas rejuvenescem.

Ao falar do Feio, o filósofo paraense Benedito Nunes escreveu "que as ações grandiosas e elevadas, de caracteres bons e nobres, possuem a beleza moral que é a própria alma e por isso constituem objetos dignos de imitação para a Arte". (3)

Por sua vez, o Belo "não coincide com a beleza exterior dos objetos representados, mas sim com a maneira de apresentar as caixas ou ações, a natureza ou o homem". (4)
Benedito Nunes tem acompanhado muito proximamente, com seu olhar sabedor, o percurso criativo de Valdir Sarubbi. Conterrâneos que são, sinto-me motivado a citar o brilhante filósofo ao ser chamado para um breve comentário sobre a saga sarubbiana em ocasião tão especial.
Ao rondar, por quase três décadas, a partir de seu auto-exílio poético na desvairada selva paulistana - quase o mesmo tempo com que trocou sua Bragança natal por Belém do Pará - este ser criador e reflexivo, equilibrado e curtido em Literatura e Música que é Valdir Sarubbi, volta e meia sente o enfado de manter-se artista plástico.

Duas bienais internacionais depois de um quase unânime reconhecimento (5), prêmios de viagem à Alemanha, Espanha, Estados Unidos e Japão, ele dizia tempos atrás: "Tudo já foi feito neste mundinho plástico. Eu não quero mais viver este conflito. Vou dedicar-me à Literatura". Mas esta angústia existencialista - de quem leu Sartre, Camus e Mann - no fundo disfarça mais uma artimanha sarúbbica.

No caso são armadilhas de extrema simpatia, contendo certas perversidades que nos tornam mais humanos, mais verdadeiros, armadilhas do gosto e do prazer estético, visual ou outros (como também o prazer táctil), que nos aproximam dos reflexos aquosos de igarapés e igapós da infância, nos espantam no black-out and white da floresta da luz escondida ou nos revigoram no ludu ludus real dos xumucuís, que se confundem em nosso imaginário com a origem dos muiraquitãs .
A arte de Sarubbi, da maneira como é apresentada em Belém por ocasião desta exposição, é tão importante para as artes plásticas como foi para a iconografia amazônica a descoberta dos registros da flora e da fauna da maior floresta do planeta realizados pelo naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira, no século XIX .

No caso são armadilhas de extrema simpatia, contendo certas perversidades que nos tornam mais humanos, mais verdadeiros, armadilhas do gosto e do prazer estético, visual ou outros (como também o prazer táctil), que nos aproximam dos reflexos aquosos de igarapés e igapós da infância, nos espantam no black-out and white da floresta da luz escondida ou nos revigoram no ludu ludus real dos xumucuís, que se confundem em nosso imaginário com a origem dos muiraquitãs .(6)
A arte de Sarubbi, da maneira como é apresentada em Belém por ocasião desta exposição, é tão importante para as artes plásticas como foi para a iconografia amazônica a descoberta dos registros da flora e da fauna da maior floresta do planeta realizados pelo naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira, no século XIX .(7)
Sarubbi retorna ao seu Estado natal na dimensão plena de quem saiu de um caroço de cupuaçu, cromatizou-se no pigmento do urucum, seguiu pelo labirinto de buriti dos xumucuís, mergulhou na filosofia da fonte, aproximou-se dos círculos iniciáticos da velha Europa, para retornar, com anímica alquimia, mimesis da infinitesimal natureza da Amazônia, acrescentada à reflexão sobre o "fazer" na arte .(8)
O prazer epidérmico e o prazer contemplativo inerentes à arte de Sarubbi, realizam-se mais acentuadamente em algumas instâncias: êxtase compartilhado na pele dos papéis puros, como se fossem selecionadas cascas de árvores anciãs, nas arranhaduras e achúrias à flor da pena - nanquim e sangue tupiniquim - cinzas e apetrechos orquestrados para a redenção da terra, suas cores e energias, suas imemoriais figuras imersas, impregnadas de lembranças, no oceano das abstrações.
Nunes(9) lembra, à propósito de Piet Mondrian (1872-1944) e do abstracionismo, que "abstrair significa selecionar, reter determinados aspectos, eliminando outros".
As obras desta exibição - distribuídas em fases distintas e organicamente justapostas - sintetizam, de maneira fluída e sem redundância, uma aura abstrata na qual reverberam mitos de uma cosmogonia originária das meditações labirínticas de inspiração marajoara. Sarubbi foi, ao longo dos anos, deslizando com seu trabalho pela antropo-geografia, como na série Geofagia (devoradores da Terra), fluvializando-se no poéticotidiano de Este Rio É Minha Rua, soltando seu grito guerreiro como em Antiguos Dueños de lãs Flexas para meditar e introspectar-se nas Memórias de Alexandria (10) e, afinal, desaguar novamente nos Reflexos: Memoriae(o resgate da riqueza hidrográfica e suas transparências, brilhos luminosos, seixos, estuários, cristais de areia, espelhos d´água, escamas, escumas, contornos, pedregulhos, rasgaduras, preamares, vazantes, chuviscos, cristais de luz, igarapés), compondo - ao meu ver - um dos mais líricos e contundentes discursos pictóricos deste final de século.
O ponto em comum entre estas séries e as fases aqui selecionadas talvez seja uma certa febre de titânio que envolve perenemente os artistas, junto com a forte febre do "fazer", com comedimento e dedicação.

Com um processo visual apoiado num envolvimento lítero-programático, Sarubbi mergulhou ultimamente na fase que chama "luzes escondidas", que prefiro titular
"black-out and white papers". Incluindo o dark das selvas misteriosas, caverna de Platão, galerias labirintosas de Benjamin, Jean Genet deglutindo a burguesa moral européia, encruzilhada de riscos que se transformam em miríades de redes intra-esterilizadas, estes desenhos reconquistam para a arte princípios básicos e fundamentais.


Na teia de gestos, nesta "feiúra" necessária de belos traços comuns dependurados em brancos imaculados, está a dialética dos opostos, o yin, o yang, o claro, o escuro, o belo, o feio, o bem, o mal, o balé distraído dos astros na coreografia do universo. Não descarto a coincidente construção, que nos obriga a repensar as anotações ancestrais, sem esquecermos de Mondrian, Pollock, Schwitters, memórias de lúdicos, minimalistas e outras conseqüências.
Bom selvagem, uma ova! Deglutição já da estética neo-mundista, grito tarzânico do Super-Macunaíma na floresta fashion, com extintores de incêndio globais entre suave cantiga de Waldemar Henrique, alternada com momentos expressivos de Mozart, Beethoven e Schumann. Energizado por uma profusão de relatos do sentir desfiados a golpes de pena e alvitres, Sarubbi redescobriu também - quase esbarrando na idade sexagenária - o prazer milenar de pintar zen as cores da alma corsária, os felizes matizes da Natureza. Portanto, temos aqui dois momentos surpreendentes de sua arte conseqüente: o das achúrias sobre papel e as pinturas de sutis discursos cromáticos.
Agradeço ao Sarubbi por nos integrar a esta festa de bom senso universal, parabenizo o Museu do Estado do Pará por viabilizar este momento importante e lindo. É e será sempre prazeroso deslizar nas águas destes igapós de sentires, tramados em vestes angelicais, folhear estes relicários de conhecimentos vastos na obra de um sereno pensador de imagens.
Se a Arte contém seus flagelos, se necessita desvendar mistérios, eis aqui uma possível senha embalada de magia - muiraquitã, shazam, abrakadabra - para revelar o caminho acertado no Labirinto: Sarubbi.

Ao contemplar estas veredas sarubbianas em tela e papel, sabendo-o sábio entre penas e pincéis e não lembrado como mereceria, recupero uma citação sua:"o homem nunca afirma tanto seu semelhante como quando o nega" .(11)
Valdir Sarubbi é, sem sombra de dúvida, um dos artistas mais universais da arte brasileira neste final de século. É necessário mergulhar, sentir e reconhecer em sua obra o fascínio das coisas simples e perenes, pois essas - como frisou o poeta - "muito mais que lindas, essas ficarão"(12), ensinando-nos a descobrir o Belo para além dos labirintos recônditos das civilizações.

São Paulo/ Belém, 7 de Maio 1998.
Ano 444 da Deglutição do Bispo Sardinha.


Paulo Klein
Escritor e crítico de arte

(1) PAZ Octavio/ O labirinto da solidão/ Tradução de Eliane Zagury/ Editora Paz e Terra .
(2) NANNUCCI Maurizio/ Hortus botanicus/ Texto de Gabriele Detterer/ Reihe Cantz, 1997.
(3) NUNES Benedito José Vianna da Costa / Introdução à filosofia da arte / Ática Editora, 1992.
(4) Idem
(5) RODRIGUES Nelson dizia que "toda unanimidade é burra".
(6) ANDRADE Mário de/ Macunaíma/ Talismã de origem marajoara citado no livro de Mário e almejado por Pietro Petra, o inimigo número 1 dos índios e dos artistas.
(7) FERREIRA Alexandre Rodrigues/ Viagem Filosófica.
(8) MEDEIROS Valdir Sarubbi/ Luzes Escondidas/ Monografia 1998.
(9) NUNES Benedito/ Ibidem.
(10) DURREL Lawrence/ O Quarteto de Alexandria
(11) MUSSIL Robert/ Um Homem Sem Qualidades / Livros de Lisboa
(12) ANDRADE Carlos Drummond de/ em Vôo na Miragem, de Paulo Klein/ Massao Ohno Editor 1996.

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