| Ao
falar do Feio, o filósofo paraense Benedito Nunes escreveu "que as
ações grandiosas e elevadas, de caracteres bons e nobres, possuem
a beleza moral que é a própria alma e por isso constituem objetos
dignos de imitação para a Arte". (3) Por
sua vez, o Belo "não coincide com a beleza exterior dos objetos representados,
mas sim com a maneira de apresentar as caixas ou ações, a natureza
ou o homem". (4) Benedito Nunes tem acompanhado muito proximamente, com
seu olhar sabedor, o percurso criativo de Valdir Sarubbi. Conterrâneos que
são, sinto-me motivado a citar o brilhante filósofo ao ser chamado
para um breve comentário sobre a saga sarubbiana em ocasião tão
especial. Ao rondar, por quase três décadas, a partir de seu
auto-exílio poético na desvairada selva paulistana - quase o mesmo
tempo com que trocou sua Bragança natal por Belém do Pará
- este ser criador e reflexivo, equilibrado e curtido em Literatura e Música
que é Valdir Sarubbi, volta e meia sente o enfado de manter-se artista
plástico.
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Duas
bienais internacionais depois de um quase unânime reconhecimento (5), prêmios
de viagem à Alemanha, Espanha, Estados Unidos e Japão, ele dizia
tempos atrás: "Tudo já foi feito neste mundinho plástico.
Eu não quero mais viver este conflito. Vou dedicar-me à Literatura".
Mas esta angústia existencialista - de quem leu Sartre, Camus e Mann -
no fundo disfarça mais uma artimanha sarúbbica. |
No caso são armadilhas de extrema simpatia, contendo certas perversidades
que nos tornam mais humanos, mais verdadeiros, armadilhas do gosto e do prazer
estético, visual ou outros (como também o prazer táctil),
que nos aproximam dos reflexos aquosos de igarapés e igapós da infância,
nos espantam no black-out and white da floresta da luz escondida ou nos revigoram
no ludu ludus real dos xumucuís, que se confundem em nosso imaginário
com a origem dos muiraquitãs . A arte de Sarubbi, da maneira como é
apresentada em Belém por ocasião desta exposição,
é tão importante para as artes plásticas como foi para a
iconografia amazônica a descoberta dos registros da flora e da fauna da
maior floresta do planeta realizados pelo naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira,
no século XIX . |
No caso
são armadilhas de extrema simpatia, contendo certas perversidades que nos
tornam mais humanos, mais verdadeiros, armadilhas do gosto e do prazer estético,
visual ou outros (como também o prazer táctil), que nos aproximam
dos reflexos aquosos de igarapés e igapós da infância, nos
espantam no black-out and white da floresta da luz escondida ou nos revigoram
no ludu ludus real dos xumucuís, que se confundem em nosso imaginário
com a origem dos muiraquitãs .(6) A arte de Sarubbi, da maneira como
é apresentada em Belém por ocasião desta exposição,
é tão importante para as artes plásticas como foi para a
iconografia amazônica a descoberta dos registros da flora e da fauna da
maior floresta do planeta realizados pelo naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira,
no século XIX .(7) Sarubbi retorna ao seu Estado natal na dimensão
plena de quem saiu de um caroço de cupuaçu, cromatizou-se no pigmento
do urucum, seguiu pelo labirinto de buriti dos xumucuís, mergulhou na filosofia
da fonte, aproximou-se dos círculos iniciáticos da velha Europa,
para retornar, com anímica alquimia, mimesis da infinitesimal natureza
da Amazônia, acrescentada à reflexão sobre o "fazer"
na arte .(8) O prazer epidérmico e o prazer contemplativo inerentes
à arte de Sarubbi, realizam-se mais acentuadamente em algumas instâncias:
êxtase compartilhado na pele dos papéis puros, como se fossem selecionadas
cascas de árvores anciãs, nas arranhaduras e achúrias
à flor da pena - nanquim e sangue tupiniquim - cinzas e apetrechos orquestrados
para a redenção da terra, suas cores e energias, suas imemoriais
figuras imersas, impregnadas de lembranças, no oceano das abstrações.
Nunes(9) lembra, à propósito de Piet Mondrian (1872-1944) e do abstracionismo,
que "abstrair significa selecionar, reter determinados aspectos, eliminando
outros". As obras desta exibição - distribuídas
em fases distintas e organicamente justapostas - sintetizam, de maneira fluída
e sem redundância, uma aura abstrata na qual reverberam mitos de uma cosmogonia
originária das meditações labirínticas de inspiração
marajoara. Sarubbi foi, ao longo dos anos, deslizando com seu trabalho pela antropo-geografia,
como na série Geofagia (devoradores da Terra), fluvializando-se no poéticotidiano
de Este Rio É Minha Rua, soltando seu grito guerreiro como em Antiguos
Dueños de lãs Flexas para meditar e introspectar-se nas Memórias
de Alexandria (10) e, afinal, desaguar novamente nos Reflexos: Memoriae(o
resgate da riqueza hidrográfica e suas transparências, brilhos luminosos,
seixos, estuários, cristais de areia, espelhos d´água, escamas,
escumas, contornos, pedregulhos, rasgaduras, preamares, vazantes, chuviscos, cristais
de luz, igarapés), compondo - ao meu ver - um dos mais líricos e
contundentes discursos pictóricos deste final de século. O ponto
em comum entre estas séries e as fases aqui selecionadas talvez seja uma
certa febre de titânio que envolve perenemente os artistas, junto com a
forte febre do "fazer", com comedimento e dedicação.
Com um
processo visual apoiado num envolvimento lítero-programático, Sarubbi
mergulhou ultimamente na fase que chama "luzes escondidas", que
prefiro titular "black-out and white papers". Incluindo o
dark das selvas misteriosas, caverna de Platão, galerias labirintosas
de Benjamin, Jean Genet deglutindo a burguesa moral européia, encruzilhada
de riscos que se transformam em miríades de redes intra-esterilizadas,
estes desenhos reconquistam para a arte princípios básicos e fundamentais. |  |
Na teia de gestos, nesta "feiúra" necessária de belos
traços comuns dependurados em brancos imaculados, está a dialética
dos opostos, o yin, o yang, o claro, o escuro, o belo, o feio, o bem, o mal, o
balé distraído dos astros na coreografia do universo. Não
descarto a coincidente construção, que nos obriga a repensar as
anotações ancestrais, sem esquecermos de Mondrian, Pollock, Schwitters,
memórias de lúdicos, minimalistas e outras conseqüências.
Bom selvagem, uma ova! Deglutição já da estética
neo-mundista, grito tarzânico do Super-Macunaíma na floresta fashion,
com extintores de incêndio globais entre suave cantiga de Waldemar Henrique,
alternada com momentos expressivos de Mozart, Beethoven e Schumann. Energizado
por uma profusão de relatos do sentir desfiados a golpes de pena e alvitres,
Sarubbi redescobriu também - quase esbarrando na idade sexagenária
- o prazer milenar de pintar zen as cores da alma corsária, os felizes
matizes da Natureza. Portanto, temos aqui dois momentos surpreendentes de sua
arte conseqüente: o das achúrias sobre papel e as pinturas
de sutis discursos cromáticos. Agradeço ao Sarubbi por nos
integrar a esta festa de bom senso universal, parabenizo o Museu do Estado do
Pará por viabilizar este momento importante e lindo. É e será
sempre prazeroso deslizar nas águas destes igapós de sentires, tramados
em vestes angelicais, folhear estes relicários de conhecimentos vastos
na obra de um sereno pensador de imagens. Se a Arte contém seus flagelos,
se necessita desvendar mistérios, eis aqui uma possível senha embalada
de magia - muiraquitã, shazam, abrakadabra - para revelar o caminho
acertado no Labirinto: Sarubbi.
Ao
contemplar estas veredas sarubbianas em tela e papel, sabendo-o sábio entre
penas e pincéis e não lembrado como mereceria, recupero uma citação
sua:"o homem nunca afirma tanto seu semelhante como quando o nega" .(11)
Valdir Sarubbi é, sem sombra de dúvida, um dos artistas mais universais
da arte brasileira neste final de século. É necessário mergulhar,
sentir e reconhecer em sua obra o fascínio das coisas simples e perenes,
pois essas - como frisou o poeta - "muito mais que lindas, essas ficarão"(12),
ensinando-nos a descobrir o Belo para além dos labirintos recônditos
das civilizações.
São Paulo/ Belém, 7 de Maio 1998. Ano 444 da Deglutição
do Bispo Sardinha.
Paulo Klein Escritor e crítico de arte
(1)
PAZ Octavio/ O labirinto da solidão/ Tradução de Eliane
Zagury/ Editora Paz e Terra . (2) NANNUCCI Maurizio/ Hortus botanicus/
Texto de Gabriele Detterer/ Reihe Cantz, 1997. (3) NUNES Benedito José
Vianna da Costa / Introdução à filosofia da arte /
Ática Editora, 1992. (4) Idem (5) RODRIGUES Nelson dizia que "toda
unanimidade é burra". (6) ANDRADE Mário de/ Macunaíma/
Talismã de origem marajoara citado no livro de Mário e almejado
por Pietro Petra, o inimigo número 1 dos índios e dos artistas.
(7) FERREIRA Alexandre Rodrigues/ Viagem Filosófica. (8) MEDEIROS
Valdir Sarubbi/ Luzes Escondidas/ Monografia 1998. (9) NUNES Benedito/
Ibidem. (10) DURREL Lawrence/ O Quarteto de Alexandria (11) MUSSIL
Robert/ Um Homem Sem Qualidades / Livros de Lisboa (12) ANDRADE Carlos
Drummond de/ em Vôo na Miragem, de Paulo Klein/ Massao Ohno Editor
1996. |