Folias
de Caravaggio, ninfetas de
Balthus e a nova figuração de Sôlha
ou
A
pintura eletro-ácida de Luiz Sôlha
"Ah, olhar é
em mim uma perversão sexual"! (1)
"Numa das primeiras imagens que a filosofia
faz de si mesma, ela se vê como pintura.
No século V antes de
Cristo, Empédocles de Agrigento, no poema "Sobre a Natureza",
mostra que o caminho que leva à verdade deve ser o que parte das múltiplas
experiências dos sentidos e as conjuga com proporção e medida.
Certamente em contraposição ao primeiro caminho proposto pelo poema
de Parmênides - o estritamente racional e significativamente apresentado
no discurso de uma deusa - , Empédocles, líder do movimento democrático
em sua cidade, democratiza e humaniza os fundamentos do verdadeiro conhecimento"
(2)
| Existem
diversos motivos que nos levam a apreciar a arte de Luiz Sôlha e o principal
deles é que ela nos faz repensar o homem contemporâneo retomando
questões fundamentais, como a proposta acima, extraída de uma aula
do professor José Américo da Motta Pessanha sobre "O Olhar".
Cito-o porque, além da justeza de suas palavras, ele é um dos pensadores
admirados por LS - como passo a também chamar este excitante criador. E,
porque faz parte de sua proposta refletir sobre fatos presentes com bases fundadas
na sabedoria antiga. | |
Natural de Mongaguá,
cidade do litoral paulista, a filosofia encontra nele o desafio de trabalhar a
bidimensionalidade como se fosse um procênio a ser explorado. Em suas telas,
em geral de grandes dimensões, trama uma estratégia contemporânea
com a eternidade, coloca no mesmo ambiente Madonna, destacando-se entre a fumaça
do charuto do Frank Stella contracenando com Francis Bacon e Lucian Freud. Preenchem
seus campos compositivos alusões a Antoni Tapiés - há dele
a obra "Peça de Roupa" - , Nuno Ramos, Leonilson e Frida Kahlo,
interpretando-se através de signos e alegorias, criando uma sensação
voyerista. Há um excesso, às vezes proposital, um exagero de carinhos
- talvez por carências, múltiplas homenagens, mitificação,
que condiz perfeitamente com a humanidade, seus vícios, suas virtudes.
As
pinturas recentes de LS comentam, à sua maneira, pensamentos e pensadores
irradiados através de figuras de artistas e tops do mundo fashion , da
música pop, do cinema. Ao mesmo tempo que transporta-os do mundo da mídia,
dos anúncios e propagandas para o ambiente virtual da tela pintada, formula
questões, recorta pensamentos, elege frases que inclui como slogans na
tela. Não raro faz uma metaperformance a partir da tela, cita instalações
ou artistas da performancena.
Intenso
operário das telas que executa, dissolve nelas tudo o que sabe e pensa
sobre Pintura, penetra universos recônditos do pensamento e da visualidade,
mescla alguns ícones das artes e da mídia, fazendo desfilarem à
nossa frente Lucian Freud e Francis Bacon, mas também Joel-Peter Witkin,
Yves Klein, Frank Stella, Nuno Ramos, Leonilson, Lichtenstein, Tibor Csernus,
David Bowie entrevista Balthus, e ainda Caravaggio, Cindy Crawford, Madonna e
Brad Pitt, fotos de Mapplethorpe, Helmut Newton, frases de Dali ou de um filósofo
que o impressione. Se fosse para dar um título a esta série, ele
conta que poderia ser "Aos Humanos".
Em
uma de suas obras, que intitulou Tapies, Versace e Nuno Ramos existe - além
do caleidoscópio de imagens que explodem sobre nós como se saídas
de uma edição ilustrada - uma inscrição colocada de
maneira incômoda, que funciona como uma chave para esta série de
pinturas: "o artista contemporâneo é liberto de todas as normas",
"de todas as prisões de representação da realidade",
como ele reforça, e continua: "A frase de Tapies posiciona-se como
contrária, obviamente, à idéia de uma pintura clássica,
mas eu, como me considero um artista contemporâneo, livre como ele próprio
coloca, retrato-os classicamente contradizendo-o em sua opinião sobre a
Pintura". O "modelão" - como ele mesmo o chama - que completa
a cena, está envolto em um vistoso pano de Gianni Versace, tendo ao fundo
colunas e paredes envelhecidas à maneira grega, remetendo às pinturas
pompeianas ou venezianas, sob uma sucessão de questões colocadas,
tiradas, mantidas ou não mantidas. E é com estas cortinas, com estes
véus que LS vai trabalhar constantemente, montando situações/discursos
com seu patchwork de astros e estrelas, onde pentimentos e esquecimentos dissolvem
mensagens veladas. Forever!
| |
"Tudo
que vivo vai para a tela", diz ele. "Meus embates, minhas angústias.
A pincelada vigorosa de um dia pode ser a derrota do dia seguinte. Estou pensando
sempre nesta condição passiva do espectador em relação
às coisas que se lhe apresentam através da mídia, dos debates
filosóficos, dos acontecimentos do mundo e tudo o que envolve o ser humano".
|
Por
isso o artista não fica satisfeito com facilidade, há sempre que
tocar mais uma vez a tênue pele da tela, e isso LS faz com paixão.
"Então tento,
na Pintura, através das minhas técnicas clássicas - renascentista,
barroca, maneirista ou o que quer que seja - , enfatizar que somos seres que sofremos
cargas diárias de emoção e informação e temos
que lidar com isso da forma mais saudável possível. A minha forma
- insana - é reproduzir em pintura aquilo que sofro em leitura, encontros
casuais, falas, descobertas particulares", revela Sôlha, quase para
morrer. |
Pintura
de gênero, generosa pintura de maneiras clássicas, salpicada da sensualidade
dos anos 70, amedrontada nos 80 e 90, fazendo gênero com a Pintura. A obra
atual de Sôlha vai além da só pintura para ser a Pintura como
discussão filosófica sobre os ícones da representação
na arte, sobre os mergulhos no mundo vazio do glamour através das páginas
de revistas, a transformação de ídolos da mídia em
personagens que convivem com seus gênios da pintura de todos os tempos.
E há a questão da autoria, da troca de papéis, da busca de
um novo ser através da incorporação de outros entes.
Há
esta paixão desmedida causada pelo ofício de quem sabe-se pintor,
de quem usa as mãos e a intensidade de seu pensamento, de quem deposita
nesta prática artística grande dose de amor. E isso conta muito.
A
pintura de Sôlha é êxtase, mas pode ser humor, namoro no escuro
do cinema, good trip avec, uma Coca-cola gelada no meio da tarde quente. Um flerte,
uma telinterconferência Filosofia, sexo, rock and roll e pinturas do Sôlha.
Esta sua fórmula e alguns sex simbols a mais em citações
quase gráficas, pós-impressas, porém pintadas em tinta oleosa.
Luiz
Sôlha é um pintor importante na arte deste final de milênio.
Um Caravaggio às avessas. Ele vive e morre pela pintura, diariamente. Como
diariamente dança seu funk, recria a pintura pura, do auge desta técnica,
transmitindo isso através de questões fundamentais da filosofia
e da comunicação. É um artista que faz questão de
pegar o pincel e desenvolver o ato puro de retratar, de desenvolver a figura,
a anatomia, as manchas e transparências. Apesar de todas possíveis
citações e das referências eruditas, de toda a carga de arte
mental, conceitual deste final de século e milênio, Sôlha é
mesmo um pintor, um puro pintor que pensa.
Se
há excesso de imagens em suas telas, se há exagero, se há
saturação de cores e informações, há também
essência e contemplação, há reconhecimento histórico
de ações íntimas, há expansão e recolhimento,
sensações que ele capta dos ambientes e do comportamento humano,
dos pintores que marcaram sua retina, fotógrafos, top models, corpos torneados,
grifes famosas. Versace, Gautier, Calvin Klein desfilam por cenários que
são um mergulho na obra de determinado artista, pintor, fotógrafo.
Atmosferas que se fundem por trás da luz do projetor.
As
cenas se sucedem surpreendentes. Em "A Dominadora" , inspirada numa
personagem da obra de Joel-Peter Witkin, uma estranha e gorda senhora com peitos
pendurados por cordões tem a face tomada por uma Vênus de Samotrácia
com interferência que remete à Yves Klein, circundada ainda por uma
donzela de Vermeer, Maria Callas em tom dramático e Camile Paglia com seu
olhar de crítico descrédito, as três lançando seus
climas sobre o espectador.
Todas
as telas seguem o mesmo processo, imagens selecionadas, interligadas a partir
de um discurso filosófico que o artista vai desenvolvendo em paralelo,
não querendo dizer que ele transporte exatamente isso para a tela. Madonna
trabalhada num computador e transformada numa madona clássica, extraída
da revista da Folha, aparece circundada por um Jean Paul Gautier algo andrógino,
algo mágico e um jovem modelo da Calvin Klein; Balthus é entrevistado
por David Bowie, como apresentado em uma matéria célebre, circundados
por uma ninfeta malabarista e uma minimalíssima bateria de ursinhos de
pelúcia.
| Cada uma delas merece,
no processo e ao final, comentários do artista com relação
ao encontro daquelas pessoas ali, porém interessante notar que distanciadas
no tempo estas telas representarão fragmentos de instantes e desejos a
serem re-elaborados como idéia e discurso. Quem se lembrará que
ali está uma modelo americana ou um pintor finlandês? |
 |
Se há
um momento mais relaxante nesta série, em que é menor a tensão,
é - em minha opinião - nas duas obras que LS dedica à Leonilson.
Nelas o artista trabalha com idéias cristalizadas, apesar de mencionar
as costuras com cordões encerados e as figuras sobre os corações
recortados sobre acetato, típicas da artesania do artista cearense. Como
fundo de uma delas estão uma calla palustris (copo-de-leite), reproduzido
de uma imagem do artista fotógrafo Robert Mappletorpe. Ambos mortos em
situações semelhantes, vítimas da Aids.
Os corações,
com as figuras humanas, costurados, quase um fetiche com arte, completam a homenagem.
Na
outra, LS fez apenas inverter a gravidade de uma obra de Leonilson, fazendo os
cristais de um lustre subirem ao invés de descerem. Nesta obra aproveita
o discurso crítico sobre o trabalho de Leonilson ("São Tantas
as Verdades" é o nome do livro de Lisete Lagnado sobre ele) e inclui
a palavra "Verdades" entre cordões, desta vez cortados.
Apesar
da pintura que nasceu da apropriação de um anúncio da Benneton
("À Escola de Oliviero Toscani"), onde acontece o cruzamento
entre dois eqüinos, abrir um ponto de vista diferente para analisar-se as
preocupações de Sôlha, considero os dois trabalhos dedicados
ao Leonilson uma homenagem sincera e de grande felicidade, um jogo bem jogado.
Belos porque exibem de maneira respeitosa a refinada sensibilidade do artista
autor e do artista referência.
No
entanto, em nenhuma outra tela fica tão evidenciada a proposta de Luiz
Sôlha com relação à nova ordem mundial das imagens,
como na que resgata uma foto da equipe de Toscani. Ele deu aos dois eqüinos
in love uma aparência fake, de miniatura de brinquedo, anulou praticamente
o fundo e, sobre a grama, pintou o volume Paidéia, de Werner Jaeger, que
tanto lhe alimentou. Na tela escreveu ainda à margem, "Reprodução",
que é como credita-se na imprensa fotos cedidas por terceiros e "Work
in Progress", maneira que encontrou de tornar público tanto a origem
de suas divagações filosóficas como de demonstrar que seu
trabalho está apenas em processo. Tudo com fina ironia, que nem todos degustarão.
Em
outra tela, a que homenageia Tibor Csernus, considerado por muitos como "o
novo Caravaggio", há alusão à uma orgia báquica
ao mesmo tempo em que em outros planos há Madonna nua e uma modelo do próprio
Tibor. Assim como todas as ninfas do planeta são homenageadas na tela em
que Balthus é entrevistado por David Bowie. As imagens que LS seleciona
são, em geral, de impacto e adquirem novo status a partir de suas cores
e técnicas.
Luiz
Sôlha presta com esta exposição alguns favores aos projetos
da atualidade. Mostra que são ainda muitos os pintores que acreditam nas
possibilidades da técnica pictórica, desde que utilizada com sensibilidade
e inteligência. Demonstra que também as técnicas modernas
serão em breve consideradas superadas se seu conteúdo for precário.
Portanto adiciona à sua pintura questões pertinentes para o artista
de hoje. Discute seus ícones, a representação pela figura,
o papel do autor, as apropriações e inúmeras outras questões.
Ele assiste ao mundo através da arte e das revistas ilustradas e medita
filosoficamente sobre ele, registrando em telas os melhores insights de seus sentimentos.
Paulo Klein
Crítico de Arte e curador
1.
PESSOA Fernando in Opiário, do heterônimo Álvaro de Campos.
Extraído da palestra Pensar é estar doente dos olhos, de Leyla Perrone-Moisés
na qual comenta as qualidades do olhar nos vários heterônimos de
Fernando Pessoa. Publicada em O Olhar/ Companhia das Letras São Paulo 1990,
pg. 341.
2. BACHELARD
e Monet: O Olho e a Mão, palestra de José Américo Motta Pessanha.
Publicada em O Olhar/ idem da anterior, pg. 151.