MANOEL NETO

A PINTURA ENTRE OS BASTARDOS


Valdivino, 2003
acrílico sobre tela
Coleção Guillermo Correa


Para João Antonio,
Lima Barreto e
Jorge Amado

 



"Uns com tantos
Outros tantos com algum
Mas a maioria Sem nenhum"(1)

Bastardos! Creio que foi assistindo "Dois Perdidos numa Noite Suja"(2)
na histórica Galeria Metrópole, ao lado da Biblioteca Mário de Andrade, em Sampa, que caiu a ficha. "Bastardos! Filhos da Puta. Vira-latas".

Essa atração incontinenti pelos povos do lodo, do mangue, do lumpem , das vielas malditas, os camaradas do morro, das favelas, das escórias,dos subúrbios há muito movimenta boa parte da produção artística do Ocidente e do Oriente. Ainda a Pintura, inicialmente arte de sensíveis simplórios, depois técnica esmerada e registro peculiar das instâncias da vida. E, até hoje, se pergunta quem foi o pintor de Lascaux e, na verdade, adorariam ser, pelo menos, um Da Vinci.


Num dia como este, um entre outros dias normais, em que nos debatemos sobre a forma do Ó e insistimos em testar nossos limites éticos e estéticos, dias em que pisamos em brasa, na lama, desencalacramos mágoas. Num dia como estes encontrei um pintor, puro e simples, lutando para existir atrás de suas paixões pela vida, pela Arte, por heróis possíveis como Picasso, como Pollock(3) , Basquiat(4).



Ícaro, 2003
acrílico, esmalte sintético e spray sobre tela
Coleção Southward Art
Esse cara chama-se Manoel Paes Neto, de quem aprendi a gostar meio sem querer, preliminarmente pela sincera disposição em enfatizar a Pintura, ainda que esculachada. E, seria tão somente mais um simples pintor perdido entre tantos, em época que já não se valoriza tanto os pintores de quadros, apesar de tantas e todas as paredes. Manoel pintava até pouco tempo num muquifo apertado da rua Teodoro Sampaio, bairro de Pinheiros, pedaço do lumpen e da rapaziada. E, me arrastou até lá, num sábado mormacento de 2003. O intuito era ver sua pintura, mas rolou boa música: chorinho, pagode, tropicália. E rolaram birita´s e tudo o mais.

Eu apenas conhecendo o cara, e daí? Como quem não quer nada, pedi que contasse alguma fábula urbana, um conto de fadas ou de putas ou uma história interessante qualquer que tivesse sido marcante pra ele.

E então ele soltou, como um trovão: "Entro num Basquiat, 'chapo total', azuis, violetas, amarelos, vermelhos, putas, soldados, macacos, insetos , vermes gigantescos. Totalmente lisérgico, ouço uma mulher que me chama.
É uma das mulheres de Rubens, carnes expostas, pose Barroco, se masturbando em frente aos animais. Sinto-me como se estive sob os bastões de Pollock, liquefeito, prestes a espatifar numa imensidão cândida, me apego, sou cor, sou vida, estou pronto."
Qualquer coisa que se queira dizer com isso, deve ser coisa séria, pensei comigo mesmo.

Sou um cidadão que procura ser ético em sua profissão: crítica de arte.
Ao menos, tento. E, se hoje convivo com traficantes, proxenetas, putas e rufiões, é por que a vida deu afinal o dom de receber e agradecer.
De ir adiante, sempre que possível. Eu, na verdade, sempre recebi, dei
a outra mão, agradeço a Deus pela proteção que me oferece nas encruzilhadas.

Nesta rota de gratidão, de reverência à amizade e à Arte, eu não poderia deixar de lembrar, como sempre me receberam bem os pintores em seus ateliês. Como também me recebiam como rei nas rodas de músicos negros
da periferia, como sempre me receberam como podiam os gigolôs e
meliantes das esquinas do mundo ou os donos das bocas, favela à dentro.(5)

A Louca, 2002
acrílico sobre tela, 1m x 1m
Coleção do Artista

Lembro, que quando estive pela primeira vez em um atelier de pintura, foi como se o mundo se revelasse inteiro. Era um atelier simples. Cavalete, tela inacabada, cheiro de tinta, fumo, terebentina, cana no ar! Esteira, sujeira, besteira. Mas, parecia uma catedral! Lindo. Aquela cerimônia de se reconstruir, aos poucos, o mundo sobre uma superfície qualquer sempre me pareceu o maior dos dons. Inigualável! Em quantas destas catedrais entrei? Nem me lembro mais.

E enxerguei tantas sombras, tantas luzes nessas catedrais, digo, ateliês, paisagens íntimas de Arcângelo Ianelli, Iberê Camargo, Amélia Toledo, Mário Gruber, João Câmara, Jorge Tavares, Ranchinho, entre tantos e tantos outros. Mas, às vezes transmigro ao atelier
de Caravaggio, lá no tempo distante, influência do filme de Derek Jarman .(6)


Terças-Feiras, 2002
Acrílico, óleo e pastel sobre tela
Coleção Southward Art
Nos últimos anos acompanho, ainda que menos do que gostaria, a produção dos pictóricos, seus caminhos e descaminhos. Ainda comercializada a preços estratosféricos em casos bem especiais, a Pintura passou a ser mal falada por artistas, intelectuais, pesquisadores. "A Pintura - chegam a dizer alguns -
já era. O correto agora é a instalação, instauração, interação."

Num dia como este, em que teimosa e inexplicavelmente insistia em testar meus ouvidos com rock pesado, pensei nas muitas batalhas, na guerra anunciada apesar das passeatas pacifistas, das conquistas e reconquistas de nossos rotos direitos. Então, pra que mais guerras?
Guerras como estas, movidas silenciosamente nos bastidores das Artes. Diuturna e cotidianamente. Guerras cruéis. Contra a Ética, contra a Estética, contra o direito de se expressar, contra os códigos antigos, ultrapassados, contra a Pintura. Contra Deus e contra Todos! Uma destas guerras é a guerra contra a Pintura. Dos pintores figurativos contra os abstratos e matéricos expressivos, dos minimalistas contra os gongóricos, dos festivos contra os intempestivos. Do Bem contra o Mal.


Invasão, 2002
acrílico sobre tela, 94cm x 116 cm
Coleção Millennium Art Gallery
No cenário bélico - mercenários ou valentes voluntários - dividem-se áreas. Transgressores maiores, com foto ou bit acelerado, instaladores de linhas de metrô, surfistas de trem versus pintores, escultores, gravadores.
Que imbecilidade. Miséria. Miserere Nobis!

Maravilhas, tentações, sensações, cenas vistas e as não vistas, tudo é perfeitamente "pintável". Haverá sempre um bloco do contra, como aquele que só admite as instalações públicas, performances, happenings inspirados mnemônicamente nos hippies e junkies dos anos 60.


Pergunto pro Manoel, num "dia de putas e putarias", como ele escolhe dizer, afetuosamente: "Se a Arte é a puta da sua vida, como você diz, o que você gostaria que dissessem do seu trabalho um dia?"

Ele para, pensa e solta:

- Do CARALHO!

Foi numa destas incursões desenfreadas noite à dentro, destas que aparentam expedição em busca da ainda velha e saborosa amante, em busca da velha e boa Pintura, que encontrei este artista antológico. Rufião, bandido, trambiqueiro, um manézinho, não importa. Importante é que o cidadão pinta. E pinta como quem comete um latrocínio, um estupro, um seqüestro ligeiro. Foi assim, como quem leva uma "tapa", uma porrada no estômago, que conheci a pintura de Manoel Neto.

Destes artistas que não estão preocupados em glamourizar a favela ou a periferia, Manoel pinta como quer a ralé da grande cidade, do seu jeito direto de olhar e sentir, como um repórter do avesso. De sua avozinha querida ("Madona") a uma velha senhora tripulando uma cadeira de rodas, do moleque traficante ao pedinte ou o desesperado, Manoel flagra estas situações com olhar devastador. Ele é o próprio invasor , aquele cantado pelo tragicamente falecido Sabotage. Nossa ho menagem, Sabota!


Manoel Neto não deixou ainda outras atividades de responsa em favor da Pintura. Mas já "duela"com armas próprias contra a nem sempre genial arte extra-pictórica. Porque, afinal, Pintura é Pintura. Pincéis, espadas, trinchas, escudos, paletas, brochas...Manoel e seu arsenal contra os inimigos da Arte.

Ele tem vontade inquebrantável e soluções inteligentes, rápidas e mal acabadas como as placas de preços dos butecos cujas ofertas e códigos ele copia: COXINHA, ACEM, MOCOTÓ, PÓ, MACONHA, PROSTITUIÇÃO.


Menino, 2002
acrílico sobre tela 100cm x 100 cm
Coleção Adriana Conti

Em alguns momentos, Manoel Neto abranda o bote, ameniza nos temas, mas nunca nas tintas, mas nunca na Pintura, desenvolvida com impulso vigoroso. Em outros instantes da trajetória inquieta, ele remete a uma figuração que recorda Bacon e Siron. Boa coisa, prum cara que está mudando todo dia, como quem caça uma aventura nova. E ainda dizem que mataram essa tal de Pintura.

Sim, e é bom que se diga já. Quem está contra uma técnica, um procedimento artístico, seja ele soneto ou canção, cerâmica ou escultura, desenho ou pintura, não está com nada. O que importa é a essência, o conteúdo e o contexto da criação, as possibilidades de sublimação que uma determinada obra de arte proporciona. Portanto, a Arte a ser considerada deve ser de qualidade, dentro de certos critérios, seja ela um verso ou um drama, um rabisco ou uma ocupação pública. O artista pode até morar no gueto, na ruela, no arrabalde. De lá vieram Di Cavalcanti, Vallauri, Glauco Rodrigues e tantos outros.

O fato interessante aqui é que Manoel Neto tem deixado tudo que não seja uma fidelização à Pintura para segundo plano. Ele empunha as ferramentas com coragem, aos 30 anos, em busca de uma obra que retrate sua hora e seu lugar, suas vitórias e escaramuças.
 

Madona, 2003
acrílico, carvão e costura sobre tela, 1,80 x 1,20
Coleção do Artista

Ele diz que, em arte, costuma fazer o que "dá na telha" - escultura , objetos , projetos de instalação -,  mas o que realmente ama, confessa, é a pintura Não chega a se preocupar em demasia com a técnica, mas lança espasmosgenerosos sobre a tela com seus instintos cifrados incontidos. Às
vezes, com uma pesada linguagem, até pornográfica, demonstra estar mais ligado em algo que possa ser traduzido como um resultado chocante. Se tiver que costurar, o figura costura, se tiver que rasgar, rasga, se tiver que mijar na tela, como fez o Basquiat, o cara mija, pôoo! Legal!
 
Nunca se diga que Maneco Neto terminou uma obra. Ele pode dizer que não está pronto e foder com o trabalho na seqüência. Ele mesmo conta que, de vez em quando, acha que terminou uma pintura e, quando percebe, está rasgando a referida a canivetadas, depois costura, serze como uma Penélope. Quando menos se espera, vê-se o marmanjo a bordar, candidamente, compenetrado, com as pernas cruzadas como um Bispo do Rosário em oração.

Gostamos de brincadeiras na arte, gostamos também dos temas sérios, verdadeiros, melhor: "a vida como ela é"e suas antíteses: Fome , Violência, Dor, Miséria , nunca a Morte. Até a Noite se encaixa perfeitamente nesse
painel: Sorrisos de Dor.

"Aquela lama estelar", da qual se referiu Ferreira Gullar citando a Pintura de Iberê Camargo (que maravilha caótica!), os rigores pós-industriais do concreto operário Luis Saciloto, as abstrativas cores de Arcângelo Ianelli, as rugas e transparências de Daniel Senise e Paulo Pasta, os desvarios e as paranóias, ações e transgressões de Aguilar, Granato, Peticov, Baravelli. A Pintura ainda resiste e persiste, apesar dos indecisos pendores críticos da Universidade de São Paulo. Manoel Neto está lambuzado de lama estelar até o pescoço. Falta aos mestres sobre-viverem e verem.

A Pintura, desculpem-nos seus detratores, não será sepultada em definitivo. Jamais! Mesmo com todos os desafetos, com todos os curadores belgas e alemães. A Pintura resistirá nas sombras, entre bombas e foguetes, revelará este mundo dos que tem e dos que não tem, trará a flor da pele, o único fato que realmente interessa. Valerá a Arte ainda que nos igualemos em humanidade aos que tem o Reino dos Céus. Fome Zero. Arte Dez.

Manoel Neto passou por diversas ondas pictóricas, patinou, deu ré, colocou primeira. Segue em frente ainda. Passou obviamente por um furor mercadolóide, que impulsionou sua pintura para o gosto de galerias frescas, babacas - para usar um termo local - sem quaisquer consistência ou comprometimento.


Aqui e agora ele se mostra inteiro, com mais pessoas interessadas na arte que produz. Pode nem ser novidade, mas têm suas significações, suas re-validações, suas representações, vontades de existir. Artistas! Que todos merecem ser entendidos, mesmo que tardiamente. Se puder ser na hora, ótimo!

Sou honesto no que faço e não brinco em serviço. A Pintura de Manoel Paes Barbosa Neto é um caso de Polícia. Na real, nem a Política, nem a Polícia, nem toda a grana saindo pelo ladrão seguram essa epopéia. Ele seguirá em frente, mesmo que não ganhe muito com isso, gozando de tanto pintar, gozando de existir como um ser livre, lépido e criativo no planeta.

O resto: são outras tintas. E outras histórias, que ficam para outra vez.

PAULO KLEIN
Crítico de Arte, Curador

(1) MEDEIROS, Elton e DUARTE Mauro - CD "Samba na Madrugada"/ Paulinho da Viola e Elton Medeiros.RGE.
(2) MARCOS, Plínio - "Dois Perdidos Numa Noite Suja".A peça estreou em 1968???. Filme baseado na obra, dirigido por JOFILLY, José. BRASIL 2002.
(3) HARRIS, Ed - "Pollock", filme dirigido por, USA 2000.
(4) SCHNABEL, Julian - "Basquiat" .Filme dirigido por. USA 1996.
(5) CBN - Sobre favelização ouço informação interessante. Em São Paulo, o fenômeno cresceu 30% no último ano, enquanto que o resto da cidade cresceu 8%.
(6) JARMAN, Derek - "Caravaggio". Filme dirigido por. UKA 1986.

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