|
GALVÃO
FORMA POR FORMA, POÉTICA DE OLHAR ACOMODADA EM BLOCOS

Sem
título, 2003,
acrílica sobre madeira
140 x 42 x 15 cm
|
Alma de Geômetra
"finjo uma hipótese entre o não
e o sim?
remiro-me
no espelho do perplexo?
recolho-me
por dentro? vou de mim"
Haroldo de Campos(1)
|
Galvão coloca
à nu muito mais do que o corpo da matéria.
Exibe a máquina do mundo repensada.
|
|
Revela em sua obra, desenvolvida em mais de três
décadas, a alma do geômetra herdada dos
tempos aristotélicos, dos experimentadores
Op-construtropicais , dos metaesquemas
de Oiticica(2), dos concretistas paulistas.
Este é João Carlos Galvão, novamente
entre nós para re-ordenar desejos, equilibrar
formas, re-paginar sentidos. E reclama o que lhe é
de direito.
A condição de herdeiro dos construtores
equilibristas da geometria sensível. Muito
antes da Nova Geometria.
|
Sem título
,1999,
acrílica sobre madeira
70 x 70
x 6 cm
|
Sem título,
2003,
acrílica sobre madeira
54
x 140 x 10 cm
|
Daí, este resultado surpreendente, que
salta aos nossos olhos cansados de tanta mediocridade,
irrompe do quadro, espalha-se em jogos de luz
/ sombra, alto / baixo, fundo / raso, cheio
/ vazio, ausência / excesso; excitantes
poemas de forma e cor.
|
Carioca que vive e trabalha em Nova Friburgo,
Rio de Janeiro, ele não tem se baseado
apenas na dimensão fria e racional da geometria
e empresta ao gênero maneiras e carícias
que só consegue emprestar o artista possuidor
de uma alma feliz.
|
|

Sem título,
1986/1996,
acrílica e óleo sobre tela
130
x 210 cm
|
Reparo as aparas, refilos, dobras, ordenações
de suas volumetrias e lembro-me de outro geômetra
genial: Amílcar de Castro. Mas Galvão
executa tingimentos na realidade física
da matéria, perpetra em sua obra a escala
progressiva, a batida repetida. Serão
repetições, repercussões
ou reverberações ?
A harmonia repercutida é, pode-se admitir,
um dos segredos da geometria criativa e a chave
para penetrar a arte deste grande artista
|
|
|
A obra de Galvão desperta a necessidade
de se pensar a arte atual com responsabilidade.
Iniciada nos anos 60 - tempo da Bossa Nova,
do Cinema Novo, do Concretismo -, sua trajetória
teve pontos altos de satisfação
e reconhecimento, alguns encarados com naturalidade,
como seu convívio parisiense com o
húngaro Victor Vasarely (1906-1996)
e com o excepcional Sergio Camargo ( 1930-90).
Confessa que, com eles, aprendeu a pensar
plasticamente. Outro bom momento, entre tantos
de sua saga, foi sua participação,
em 1967 da 9 a . Bienal Internacional de São
Paulo.
|
Goldberg,
2003,
acrílica sobre madeira
130
x 130 x 20 cm
|
|
|

Sem título,
1969/1970,
acrílica sobre madeira
70
x 70 x 7,5 cm
|
Obras de várias épocas e fases
podem ser vistas juntas na presente panorâmica,
ocasião rara para se apreciar um ofício
bem exercido e conferir uma produção
gerada com cálculo preciso e generoso
sentimento.
Forma por forma, poética do olhar acomodada
em blocos. Galvão segue extraindo música
dos materiais, de seus excessos, para revelar
os veios da forma, notas sensuais, aromas inebriantes,
além das possibilidades táteis que
aguçam a nossa percepção
corporal. |
|
Entre as festas que oferece ao nosso olhar, quadros
com relevos e colunas monocrômicas, Galvão
proporciona sensações confortantes,
como quando a madeira, nua e crua, em sucessivas
escavações seriadas, se alterna entre
seu tom natural e um vibrante e absoluto azul de
Klein(3).
|
|
Ele não cede em sua aguda percepção
visual, mesmo quando utiliza outras modalidades ou
materiais, como nas construções executadas
com pastilhas cerâmicas (tipo Vidrotil )
ou nos relevos em mármore branco de uma residência
da rua Suíça.
|

Sem título,
1974,
madeira
70 x 70
x 8 cm
|
| |

Sem
título, 1980,
acrílica sobre madeira
85 x 85 x 14 cm
|
Demonstração de que o artista
imprime ao mundo sua misteriosa ordem interior.
No entanto, seu encanto continua sendo a madeira,
com a qual se relaciona com intimidade, oferecendo-nos
relevos fascinantes, verdadeiros extratos de
pureza e harmonia de formas, tingidos com bom
gosto.Como se estivesse repensando o mundo e
cometendo, de propósito, alguns pequenos
erros. Para não chegar ao exagero de
se imaginar perfeito! |
|
|
|
|
PAULO KLEIN
Crítico de Arte,
Curador
|
(1)CAMPOS
Haroldo - A Máquina do Mundo Repensada
/ Atelier Editorial / São Paulo 2000.
(2)OITICICA
Hélio - Metaesquemas, série de 1957.
(3)KLEIN,
Yves - O artista francês (1926-1962) patenteou
em 1960 o IKB, International Klein Blue.
|
|
|