Mistérios e revelações do
multi pop artista digital

"Pois, cercado do riso que o envolve, nem
percebe a seriedade que provoca. Suas
imitações são tão originais que tinha que
acabar inimitável" (1).

Encontro Chapéu Amarelo
2003
Digicromia única sobre tela
1.00 x 1.30m

Só não concordo com o argumento do arguto Millôr, quando diz a respeito do Jô:
" Pintor de domingo, seus quadros são um dia de descanso " (2). José Eugenio Soares, ou Jô - como, carinhosamente, o chamamos - não deve ser tratado como um simples pintor de domingo.

Na real, ele não faz pintura convencional desde 1986, quando realizou sua última mostra individual na Galeria Ipanema (3), no Rio de Janeiro. E atualmente não cria imagens por lazer, mas prossegue sua produção do passado com outra mídia. É assim que ele se insere na arte da hora atual.

Jô retorna assim, digital , em mais um revival de sua irreverente criatividade. Com lápis e papel ele desenha, o que depois é transformado em imagem definitiva com inúmeras manipulações, através de programas básicos de computação - Paint e Photoshop , por exemplo. Em seguida recorre a um bureau, que providencia a impressão em tinta sobre tela. Cria, assim, o que chamam de infodigicromia ou pintura digital.


Armas, 2003
Digicromia única sobre tela, 2.20 x 1.40m

Meninos e meninas, eu vi e confesso a vocês! Amado e invejado, por conta da descontração e inteligência que exibe no popular "Jô Onze e Meia", ele ressurge, artista múltiplo que é, multipop e multímodo, com imagens que são extensões de suas aventuras imaginárias. Eu, particularmente, já o tinha na mira a algum tempo. Volta e meia eu me lembrava do Jô artista plástico, que merecera um texto sobre sua pintura do Mário Schenberg (1914-1990), no qual o físico e crítico de arte o considerava um bem humorado seguidor dos ícones da " popular culture ", destacando então suas matrizes fundamentais: a caricatura, os HQ e o cinema.

Lembro-me também da apresentação de sua individual na Galeria Atrium, em São Paulo, escrita por José Roberto Aguilar num tom de manifesto anarco-triunfalista. E também do comentário de Pietro Maria Bardi (1900-1999), " il professore ", que já vislumbrava o humor incorrigível a sustentar suas pinturas de sabor e saber Pop.
Maçaneta II , 2004
Digicromia única sobre tela
0.80 x 1.30m

Carambola
2004
Digicromia única sobre tela
2.00 x 1.40m

Depois das atividades pictóricas daquela fase, final dos anos 60 aos 80, em que conquistou prêmios em importantes salões de arte e participou da IX Bienal Internacional de São Paulo, Jô distanciou-se da pintura por problemas físicos, por conta de um acidente que até hoje dificulta seus movimentos do braço direito. O que não o impede de dançar , impede-o de pintar convencionalmente em qualquer dia da semana, inclusive aos domingos. Mas ele não suportava ficar impedido de gerar imagens. Aconselhado por Aguilar, seu amigo, também artista e seu primeiro incentivador, passou a investir nas novas tecnologias e a criar as infodigicromias ou, simplesmente, as "artes do Jô", como passam a ser conhecidas.

Mas o prazer, de ver o múltiplo Jô Soares nesta fase eletro-digital-crômica, vai além de qualquer expectativa prévia. Quando ele cisma com algo, acreditem, o que vem é performance da maior competência. Que o digam seus companheiros e colaboradores de teatro, cinema, literatura, tv, música. Quando se propõe a exibir seu fazer, em qualquer área, é porque já está convicto de sua capacidade em amplificar nossos sentidos com bom gosto e inteligência. Reforça o fato a máxima que ele usa com freqüência: "o artista tem várias maneiras de se expressar e deve, se possível, expressar-se em todas elas".
Quadro de Luz , 2003
Digicromia única sobre tela, 1.20 x 1.00m


Sapataria I , 2003
Digicromia única sobre tela
1.00 x 1.30m

Jô Soares retorna formatando sua percepção a partir do zero, trabalhando seus registros mentais numa adequação sensorial e tecnológica aos dias atuais. Falar em arte digital nos dias de hoje é recorrente, assim como é difícil estabelecer-se limites quanto às fronteiras da arte atual. Jô sobe neste palco ou, melhor, ocupa esta sala de exposições, com uma contribuição muito peculiar.
Inegável a síntese de prazeres e preferências contida nas digicromias do Jô. Imagens de referência, que podem ser fragmentos de gibis, homenagens a velhos mestres do cinema ou dos HQ, reflexos de ícones e padrões consagrados. Tudo isso fica claro para quem é bem informado visualmente..

Will Eisner (4), Al Capp (1909-1979), Chester Gould (1900-1985), Milton Cannif (1907-1988) e Alex Raymond (1905-1956) estão simbolicamente homenageados, assim como fica evidente sua gratidão a dois gênios da Pop Art: Roy Lichtenstein (1923-1997) e Robert Rauschenberg. E ele não esconde, como de costume, algumas histórias deliciosas, como a da visita de jovem admirador que fez à Lichtenstein em Nova York. Afinal de contas, ele também participara da Bienal da Pop, em São Paulo e quis conhecer pessoalmente seu ídolo. O que observo, e me dá satisfação ao acompanhar este renascer do Jô para as artes plásticas, é que ele aproveita a informática para criar de modo pessoal a síntese do pensamento visual de sua época, das suas influências emblemáticas, vagando hora por clássicos do cinema, de Ernest Lubitsch (1892-1947) e Fritz Lang (1890-1976), pelas atmosferas boêmias, embebidas em jazz - o ritmo de sua juventude - , a sensualidade das divas do passado, as aventuras pós-tudo de um mundo pós-nada

Sou uma Sombra! Venho de outras eras,
Do cosmopolitismo das moneras...
A simbiose das coisas me equilibra.
Em minha ignota mônada, ampla, vibra
A alma dos movimentos rotatórios...
E é de mim que decorrem, simultâneas,
A saúde das forças subterrâneas
E a morbidez dos seres ilusórios!
(5)

É fácil identificar esse conteúdo que transita por tantas referências, que passa pelo cinema noir e pelos comics , pelas lembranças das quebradas cariocas dos velhos tempos até indefinidas atmosferas de ficção científica ou luminosidades misteriosas extirpadas das telas dos pintores holandeses. Isso tudo, com pitadas da mais variada literatura, da mais clássica até a mais marginal, cultura da resistência que alimenta sua rebeldia em todas as suas atividades.
Lâmpada de Entrada , 2003
Digicromia única sobre tela, 1.30 x 0.90m

Ao som de jazz antológico, temperado com o mais autêntico swing , personagens misteriosos esquivam-se por becos e ruelas, na mira de um artista solitário. Loiras sedutoras, revólveres que podem ser de brinquedo, mas que sugerem respeito, um interrogatório sob a luz de um refletor. Será uma cena teatral? Lâmpadas, muitas lâmpadas, uma torneira pingando, muitas torneiras sem pingar, maçanetas douradas, não, apenas uma maçaneta dourada. Muda o fundo musical, rola um tango de Astor Piazzola (1921-1992) e um casal mistura-se como goma de mascar. Os cavalos ofegam na pista do Jockey Club. Tentam vencer o quinto páreo. Fantasmagorias, perfis de homens e cidades, escadarias. Luzes e sombras. Sapatos multicoloridos, uma biblioteca com muitos livros, muitas lâmpadas a transmitir idéias minimalistas e a lembrança de Mondrian (1872-1944). Chapéus de Magrite (1898-1967), chapéus do The Spirit e de anti-heróis universais. São artes do Jô - inventor de surpresas -, que invadem a cena para reanimar nossa imaginação. Aplausos distantes sugerem cortinas descerradas e um espetáculo que termina. Mas outros virão.

Paulo Klein
APCA/ ABCA/ AICA

Biblioteca Mondrian I , 2002
Digicromia única sobre tela, 1.30 x 0.80m


(1) FERNANDES, Millôr - Texto de apresentação do show na Mira do Gordo , cartaz no Teatro Cultura Artística, São Paulo. Maio 2004.
(2) Idem.
(3) MARTINS, Alexandre - Um (bom) artista plástico chamado Jô Soares . O Globo, Rio de Janeiro. 19 de Maio de 1986.
(4) www.eisnermuseum.org
(5) ANJOS, Augusto dos - Monólogo de Uma Sombra , em Obras Completas. Editora Nova Aguilar/ Rio de Janeiro 1995.



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