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PÉS MARCADOS
CARMEN GEBAILE
Aonde não levam os pés, a arte pode levar
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"extremidade do membro inferior,
que assentada no chão, permite a
postura vertical e a marcha..."(1)
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Acompanhei, em 2003, a marcha ritualística de Carmen Gebaile na ação (2) que a artista realizou, junto com outras performáticas brasileiras, pelas ruas do Marais, em Paris.
Se para os passeantes - que perambulavam, no início da primavera, pelo bairro francês nas imediações dos museus Carnavalet e Picasso - foi uma aparição inusitada, para nós foi a oportunidade de testemunharmos uma proposta artística ousada, que reforçava as premissas da existência de arte inteligente, fora dos circuitos óbvios. Aqueles passos, além do mais, evidenciavam uma artista compenetrada e versátil.
No período posterior a essa missão cultural à França, observei, continuadamente, o trabalho de Carmen Gebaile. O que se evidenciou, paulatinamente - como em outras artistas da mesma geração - foi, que a arte contemporânea já não se satisfaz com a produção de objetos plasticamente resolvidos. Mesmo que isso ocorra, em certas ocasiões, fica clara a preocupação, principal, em conduzir as investigações plásticas em contraponto com a Filosofia, considerando, no entanto, todos os avanços midiáticos da contemporaneidade.
É, com cuidadosa reflexão, que Gebaile alimenta suas criações. Não só por ter estudado Filosofia, mas por expor em suas obras seu ponto vital, entre a Poética Visual e a Filosofia, que contribuem para decifrar e amoldar sentimentos e conhecimentos.
é sempre mais difícil
ancorar um navio no espaço (3)

Carmen Gebaile envolve-nos com estas questões, que se substancializam através de suas mãos e suas inquietações, mas sua reflexão trata primordialmente das marcas deixadas pelos humanos, em particular nas digressões que ela faz sobre os pés e suas marcas ou impressões.
Nas primeiras vezes que visitei seu atelier, chamou atenção seu interesse por imagens que apresentavam pés, caminhadas ou que representavam marcas deixadas. A fixação em pés é recorrente ao longo da literatura e da história humana. Desde Salomão, que exaltou os pés de Sulamita, até Bocaccio, Bukowyski, Sade e Masoch, foram muitos os que se entregaram aos encantos dos pés.
Símbolo da itinerância, da conexão entre a terra e o céu, medida de referência e de poder, objeto de desejo, estar aos pés de ou sob os pés de pode significar subserviência, sentimental ou política.
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Os orientais localizaram, nos pés, nossas centrais nervosas, nossos meridianos, os pontos exatos para a acupuntura. Dos pés, vieram muitas de nossas conquistas e de nossas quimeras, os primeiros passos, inseguros, da humanidade, o primeiro registro de identidade, a primeira digital.
Os pés, na obra de Carmen Gebaile, realçam aspectos de nossa tênue história humana, as marcas e trajetórias pessoais, migração e imigração, a purificação e a elevação através da base firme, representada por este extremo inferior do corpo humano. Ao transitar, com desprendimento, através da mixmídia do tempo presente, Gebaile enfatiza o uso de todas as expressões, suportes e materiais, para exprimir idéias e conceitos.
A primeira marca notada terá sido dos pés animais ou humanos, suas pegadas. Depois, bem depois, vieram os sinais, marcas deléveis ou indeléveis, o sinal nos troncos das árvores, os sinais de fumaça, as marcas do Zorro, as marcas da moda, os signos da arte, os logos e o No Logo (4) .
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Os pés peregrinos têm, por seu turno, substancial importância na história da humanidade. Foi seguindo o rastro do Deus, do Bodhisattva, no mundo humano, ou o rastro dos pés de Cristo, no monte das Oliveiras, que os homens de boa vontade encontraram o caminho exemplar. Conta-se, que Buda, desde seu nascimento, media o universo, dando sete passos em qualquer direção.
Não se trata, quando se imprime a marca dos pés, de dizer vim, mas de afirmar; estou aqui e aqui fico, como o atesta às vezes uma legenda inscrita no pé que formula o desejo de permanecer na presença da divindade. (5)
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Outras peregrinações reforçam essas impressões, como aquelas em torno do imortal P´ong-tsu no monte Tao - ying, de Maomé em Meca e em diversas mesquitas. A mãe de Yong-tse dá à luz Heu-tsi, o Príncipe Paianço, por ter andado sobre um rastro de pés, que era do Soberano do alto. Os pés de peregrino são encontrados em torno de numerosos locais de cultos sagrados. (6)
Sobre os pés, o homem construiu sua base, suas crenças. Foram as marcas de pés humanos, que ficaram impressas no chão lunar, junto com outra marca, a bandeira.
Sobre os pés, ou em função deles, a humanidade desenvolveu seus corpos e suas mentes, seus domínios reais e virtuais.
Voar com os pés, beijar os pés, estar a teus pés , o lava-pés , variações da mesma busca de identidade, que Carmen Gebaile vislumbra, competente, lançando mão de todos os meios para construir um discurso plástico que projete os passos múltiplos da humanidade.
Pés alados, pés voadores, pés que deixaram as primeiras marcas. Pés calçados ou pés vulneráveis, pés adorados.
Carmen Gebaile evoca, sob várias formas e mídias, os passos certos ou incertos do homem e considera, por conseqüência, os próprios passos, certos ou incertos, da arte contemporânea.
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PAULO KLEIN
Associação Brasileira de Críticos de Arte
Association International of Art Critics
Associação Paulista de Críticos de Arte
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(1)BUARQUE DE HOLANDA Aurélio - Novo Dicionário da Língua Portuguesa - Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro 1975.
(2) ACTES VUS/ REVUS - Centre Culturel Brésil-France - De 7 a 29 de Junho 2003 - Paris, França.
(3) CESAR Ana Cristina - A Teus Pés ( Recuperação da Adolescência ) - Editora Brasiliense - São Paulo 1982.
(4) KLEIN Naomi - No Logo - Milano, Baldini & Castoldi - 2001.
(5) CHEVALIER Jean / GHEERBRANT - Dicionário de Símbolos - José Olympio Editora 1982.
(6) Idem.
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