A Estética muito além do coração

Sem Título
Prato, tecido e tinta acrílica

Cecilia Stelini faz parte de um mundo de artistas que surgem, de tempos em tempos, com alto teor de informação e de reflexão, dispostos a melhorar o mundo a partir de suas fundações.

Não é circunstancial, por outro lado, o fato do coração ter sido o principal elemento em sua obra. Entre outros aspectos, que observo ao longo dos últimos anos, destaco seu contínuo tratamento das sensações primais, a Dor e o Prazer, o Amor e a Morte, referências em suas manifestações.

Seus tapetes de pó de serragem - instalados em espaços públicos, por outro lado, remetem aos tapetes de fé das comemorações de Corpus Christis (herança de rituais antigos). Sua enigmática figura performática, um pouco geisha de porcelana, um pouco teletubies , com a solene capa cor de maravilha a atravessar tempos e tempos.

Fundamental considerar-se esses registros ao tratarmos do conjunto preparado por ela nesta ocasião, síntese de etapas e cenas anteriores, feito poema visual em "sangue, panos, suor e vinhos".



Agnus
2001
Instalação/Performance


No caso em análise - a instalação/intermeios que a artista apresentou no Espaço Cultural da Embaixada do Brasil, em Berlim, Alemanha, em Julho/Agosto de 2003 - a figura performática seria apenas sugerida através do manto ou capa cerimonial e exibida como totem, como bandeira, como parangolé . No entanto, soube-se depois, que ela realizou, na capital germânica, mais uma de suas surpreendentes atuações.

Os objetos e peças pintadas repetem formas que lembram órgãos vitais ou o coração que se metamorfoseia em peixe ou no beijo gelado de lábios vaginais. Peças complementares em tecido de algodão, embebidas na mesma tintura, vizinha ao vinho tinto e ao sangue amanhecido, lembram gases ou suturas ensangüentadas, cicatrizes, feridas hemorrágicas. Tudo disposto num estranho banquete contemporâneo, como o instrumental cirúrgico numa mesa de operação, ou os elementos litúrgicos de uma religião longínqua e misteriosa.



Sem Título
Prato, tecido e tinta acrílica


O sentido da obra de Stelini é labiríntico, misterioso, apesar de cumprir certas leis das Artes Visuais. Ela conecta sistemas humanos e tecnológicos, disseca-os, buscando uma arte que recupere suas propriedades de despertar sensibilidades.

Associar seu trabalho a outros nomes e escolas da História da Arte é arriscado. Sua ação remete-nos, algumas vezes, a dois ícones da arte mundial: Louise Bourgeois (1911- ) e Joseph Beauys (1921-1986). E, de coração, ultimamente tenho associado seu trabalho - no flerte que realiza com o bizarro e o hospitalar - com o de outra intrigante artista brasileira, a paulistana Nazareth Pacheco. No entanto ela vem construindo seu próprio caminho.

Agnus Cibus
2001
Instalação/Performance



Detalhe

Junho 2003/
Reescrito em Dezembro 2005

 


PAULO KLEIN
Associação Brasileira de Críticos de Arte
Association International of Art Critics
Associação Paulista de Críticos de Arte


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